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Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistĂȘncia

  • 27 de jul. de 2018
  • 6 min de leitura

por Mariane Tavares

Maria Auxiliadora nasceu em Minas Gerais, em 1935. Morreu em SĂŁo Paulo, em 1974. Viveu apenas 39 anos, e, foi no meio da vida, aos 19 anos, que iniciou sua atividade criativa.

Pintora autodidata, Maria Auxiliadora, mesmo com pouco tempo de vida, teve sua obra exposta tanto em Ăąmbito nacional quanto internacional. No inĂ­cio da vida trabalhou como empregada domĂ©stica – imagem que Ă© muito retratada em seu trabalho – na zona rural. Oriunda de uma famĂ­lia de artistas, como Vicente Paulo da Silva, CĂąndido Silva, Conceição Aparecida da Silva e EfigĂȘnia RosĂĄrio da Silva, Maria Auxiliadora teve seus primeiros trabalhos expostos em feiras populares em Embu das Artes e na Praça da RepĂșblica. Comumente pintou sobre temas que lhe eram peculiares, como festas, danças e ritos afro-brasileiros e a morte.

Entre os dias 10 de março e 02 de junho de 2018, o Museu de Arte de SĂŁo Paulo Assis Chateubriand – MASP, com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, expĂŽs 82 obras da artista sob o tĂ­tulo “Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistĂȘncia”. Na atual conjuntura polĂ­tica do Brasil, a obra de Maria Auxiliadora Ă© ressignificada ao tratar de temas que ainda sĂŁo tĂŁo pertinentes Ă  sociedade, como preconceito, violĂȘncia, o feminino, entre outros. No ano de 2018, o MASP tem o projeto de dedicar seu programa Ă s “HistĂłrias e narrativas afro-atlĂąnticas” e o iniciou apresentando obras de Maria Auxiliadora e Aleijadinho, e, tambĂ©m, fazendo parcerias com museus como o Tate, museu de arte moderna do Reino Unido.

A mostra no MASP teve o objetivo de dar um novo olhar para sua obra, extrapolando os limites que a crĂ­tica de arte da dĂ©cada de 70 lhe deram, ao enquadrĂĄ-la na categoria de arte popular, primitiva ou naĂŻf. Os curadores subdividiram suas obras em seis eixos temĂĄticos, eram eles: autorretrato; casais; interiores; manifestaçÔes populares; candomblĂ©, umbanda e orixĂĄs; rural. Naturalmente, por pertencer a esta raça, a artista pintou muitas pessoas de pele negra, dando-lhes mais representatividade e protagonismo ao longo de sua produção, pois, de modo geral, na histĂłria da arte brasileira o negro Ă© pouco retratado ou Ă© retratado dentro da tipologia de escravo. Em uma tela muito simbĂłlica, que se refere Ă  educação no tempo da ditadura militar brasileira, intitulada “Mobral” (1971), o professor Ă© representado como um homem negro, aquele que ensina, que tem o conhecimento e nĂŁo como um subalterno. De acordo com Fernando Oliva “a exposição privilegiou trabalhos nos quais uma postura combativa e de recusa se manifesta de formas diversas, tanto no plano das prĂłprias telas, com uma figuração inusitada, como na resistĂȘncia da artista a aprender a pintar, afastando-se do elitismo do ‘bom gosto’”.

Quando Oliva diz que Maria Auxiliadora se afastou de tĂ©cnicas elitistas, ele se refere Ă s tĂ©cnicas de bordado com carvĂŁo sobre as linhas e tinta guache, aos diferentes suportes que nĂŁo se limitavam apenas Ă s telas, mas cartĂŁo e chapas de madeira ou tinta acrĂ­lica. Suas composiçÔes eram com cores vibrantes e formas geomĂ©tricas fixas, com pouco uso de perspectiva. Isso Ă© muito perceptĂ­vel em telas como “A preparação das meninas” (1972), onde a parede do banheiro Ă© pintada com um padrĂŁo que intercala pequenos quadrados verdes e pretos, como se fossem azulejos, e o chĂŁo Ă© diferente, com losangos pretos e brancos. Nesse mesmo quadro, o bordado com o qual Maria Auxiliadora começou sua carreira, aparece nas texturas em tecidos de renda que vestem algumas meninas e que cobre a que estĂĄ se banhando. AlĂ©m de unir tinta e bordado, outra tĂ©cnica que a artista desenvolveu foi juntar tinta a Ăłleo, mechas do prĂłprio cabelo e uma massa plĂĄstica frequentemente usada para consertos domĂ©sticos, obtendo uma textura que dava volume Ă s partes do corpo das pessoas retratadas nas telas; dessa maneira cabelos, nĂĄdegas e seios ganharam alto-relevo e as obras dĂŁo impressĂŁo de movimento e vivacidade. Essas tĂ©cnicas sĂŁo facilmente reconhecidas tanto na tela “A preparação das meninas” como em “Banhistas” (1973).

A obra de Maria Auxiliadora ganhou proporçÔes internacionais em 1970, quando ela conheceu o crĂ­tico de arte MĂĄrio Schemberg, que comprou suas obras e levou para os Estados Unidos para presentear o cĂŽnsul Alan Fisher. Este, se interessou tanto pela obra da artista, que montou uma exposição individual com vĂĄrias obras de Maria Auxiliadora, na Galeria do USIS (serviço de informação norte-americano) – Conjunto Nacional de SĂŁo Paulo – e ali todas elas foram vendidas. Foi atravĂ©s de Alan Fisher que a obra da pintora brasileira chegou atĂ© o marchand e colecionador Werner Arnhold, e entĂŁo foi exposta em galerias de arte da Europa e dos Estados Unidos, ganhando visibilidade internacional. A primeira vez que o MASP expĂŽs obras de Maria Auxiliadora, foi em 1973, integrando a “Exposição Afro-brasileira de Artes PlĂĄsticas” e dois anos depois o diretor do museu Ă  Ă©poca – Pietro Maria Bardi – escolheu uma de suas obras para capa da coletiva “Festa de Cores” (1975) e mais uma vez sua obra entrou em circulação.

Com o apoio de Bardi, aconteceu o lançamento do livro “Maria Auxiliadora da Silva” sobre as pinturas da artista, obra publicada em quatro lĂ­nguas: portuguĂȘs, inglĂȘs, francĂȘs e alemĂŁo. Mas Ă© sĂł apĂłs a sua morte que o MASP realiza uma exposição individual, em 1981, com aproximadamente 70 pinturas. Depois dessa exposição, sua obra cai no esquecimento e trinta anos depois Ă© recuperada pelo mesmo museu. A exposição de 2018 veio com a proposta de reacender a memĂłria de Maria Auxiliadora, principalmente em tempos nos quais as discussĂ”es sobre a presença das mulheres nas artes, o feminismo negro e violĂȘncia e desigualdade social na polĂ­tica brasileira estĂŁo efervescentes.

O catĂĄlogo da mostra contĂ©m 12 ensaios inĂ©ditos, de Adriano Pedrosa, Amanda Carneiro, Fernando Oliva, Isabel Gaspari, Karen Quinn, Lilia Schwarcz, Lucienne Peiry, Marta mestre, Mirella Santos Maria, Renata Bittencourt, Renata Felinto e Roberto Condutu; hĂĄ tambĂ©m trĂȘs textos de 1970 escritos por MĂĄrio Schenberg, um texto de 1975 escrito por LĂ©lia Coelho Frota, outro escrito em 1977 por Pietro Maria Bardi e uma nota biogrĂĄfica escrita por Artur Santoro. Para esta publicação foram impressas as 82 obras expostas no museu e atualmente Ă© a obra mais completa sobre a pesquisa e a produção de Maria Auxiliadora.

Se a vida cotidiana de Maria Auxiliadora foi retratada do inĂ­cio ao fim de sua obra, a morte foi o tema mais aparente nos dois Ășltimos anos de sua produção. Depois de descobrir que tinha cĂąncer e passar por inĂșmeros tratamentos atĂ© esgotar seus recursos, a pintora desistiu de lutar pela vida e passou a dedicar-se integralmente Ă  arte. A partir de entĂŁo, começaram os autorretratos no leito de morte, como “Sem tĂ­tulo (Última unção)” (1973), no qual ela estĂĄ rodeada de familiares que aguardavam sua morte e lhe davam a extrema-unção. TambĂ©m hĂĄ quadros como “VelĂłrio da noiva” (1974), que faz parte do acervo geral do MASP, no qual ela Ă© retratada como uma noiva cadĂĄver que nĂŁo pĂŽde viver o matrimĂŽnio, mas ainda sim realizou um sonho. Outro quadro sobre a morte, diferente dos demais, traz a mensagem de que a arte transcende a morte, Ă© “Autorretrato com anjos” (1972) no qual Maria Auxiliadora se mostra diante de um cavalete, sublime, rodeada por anjos que seguram suas telas, pinceis e tubos de tinta para que sua atividade criadora nĂŁo cesse.

O complemento do tĂ­tulo da exposição “Vida cotidiana, pintura e resistĂȘncia” Ă© adequado como um percurso panorĂąmico da obra de Maria Auxiliadora, porque o debate que desperta Ă© que “o pessoal Ă© polĂ­tico”. Diante desse panorama, nos perguntamos: os subĂșrbios da cidade de SĂŁo Paulo que aparecem nas telas sĂŁo tĂŁo diferentes dos subĂșrbios de agora? E se nĂŁo sĂŁo, isso tem a ver com as diferentes entre as classes sociais? A obra da artista ganha mais força na contemporaneidade porque a histĂłria da arte e as coleçÔes de arte dos principais museus do mundo sĂŁo dominadas por representaçÔes eurocĂȘntricas e, a isto, somam-se os comportamentos conservadores tanto das pessoas que tĂȘm frequentado os museus brasileiros, como da mĂ­dia – vide o cancelamento da exposição “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” e a performance “La bete”, de Wagner Schwartz em 2017. Sendo assim, a posição do MASP, ao desenvolver um projeto como o “HistĂłrias e narrativas afro-atlĂąnticas”, Ă© uma atitude polĂ­tica, porque coloca o negro como sujeito tanto da criação, como da representação da obra

Em Maria Auxiliadora isso pode ter no mĂ­nimo dois desdobramentos. O primeiro refere-se Ă  ideia de resistir Ă  morte. Se no Brasil os Ă­ndices de violĂȘncia contra jovens e mulheres negras sĂŁo 70% maiores do que com jovens e mulheres brancas, estar presente Ă© uma maneira desse grupo sobreviver na obra e ocupar espaços que antes nĂŁo ocupavam, como o museu. O segundo estĂĄ diretamente ligado “ao meio da vida”, esse momento que barthesianamente corresponde ao tempo de um acontecimento significativo que faz o artista tomar consciĂȘncia de sua condição e mortalidade. Descobrir-se artista auto-didata mudou radicalmente a vida de Maria Auxiliadora, de empregada domĂ©stica Ă s exposiçÔes nacionais e internacionais. Sua resistĂȘncia Ă  morte confirma que “o meio da vida”, independente de quanto tempo dure, Ă© o perĂ­odo no qual o artista ressignifica sua vida e obra, tentando nĂŁo se entregar Ă  dor da morte que estava por vir e Ă  repetição de uma histĂłria que nĂŁo cessa.

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