O meio da vida e/ou a vida de Coelho Pacheco


por Leonardo Gandolfi

A vida de Coelho Pacheco

A vida de Coelho Pacheco não termina com sua morte em 1951. É o que vamos ver adiante. História em 1 epígrafe e 22 mini capítulos.

The stars were bright, Fernando,

they were shining there for you and me

abba

1.

Mário de Sá-Carneiro e Teixeira de Pascoaes não conviveram muito ou mesmo não conviveram nada. Mas numa das versões da história a coisa não é assim. Nela, Mário de Sá-Carneiro e Teixeira de Pascoaes são amigos e amigos que trabalham juntos. Não vou entrar em detalhes sobre quando e como se conheceram. Basta dizer que ambos, cada um do seu jeito, foram leitores do satanista e dandy Carlos Fradique Mendes: Sá-Carneiro, dizem, amava-o; Pascoaes não chegou a tanto. Por ora, basta dizer que essa afinidade especial os aproximou.

2.

Da mesma forma que Fradique inicialmente é uma criação conjunta de Batalha Reis, Eça de Queirós e Antero de Quental, os autores Sá-Carneiro e Pascoaes, numa tarde de dezembro, decidem criar um personagem, um polemista, ao mesmo tempo poeta e agitador. É assim que depois de lampejos aparecem dois ensaios na revista A Águia com uma assinatura diferente: “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, de abril de 1912, e “A nova poesia portuguesa no seu aspecto psicológico”, de novembro do mesmo ano. Vale lembrar que a revista, neste momento, é dirigida por Teixeira de Pascoaes. Vale lembrar também que, no segundo texto, o de novembro, um dos poetas destacados pelo misterioso autor é o próprio Pascoaes, com versos que passaram a ser famosos justamente por terem sidos citados ali: “A folha que tombava / Era a alma que subia.”

3.

Sá-Carneiro e Pascoaes não estão brincando. Resolvem que novas pessoas podem contribuir com a criação deles. Em meio a cafés de Lisboa como A Brasileira e o Martinho da Arcada, a dupla convida nomes bem diversos, entre eles, António Botto, Almada Negreiros e Alfredo Guisado. Apesar de não frequentar café algum, Camilo Pessanha também é convidado a integrar o projeto, mas declina inúmeras vezes e por inúmeras razões. O trabalho dessa confraria nem sempre é em grupo, de modo que parte do primeiro Ricardo Reis é de responsabilidade exclusiva de António Botto. Álvaro de Campos – se no início refletia os problemas do encontro entre Sá-Carneiro e Pascoaes – logo vê seus versos preparados pelo jovem Almada, que mais tarde passa a trabalhar – noutra união complicada – com o jovem José Régio. Já os primeiros textos do ortônimo são aqueles que Sá-Carneiro e Pascoaes mais trabalharam juntos. Isso até o nascimento de Alberto Caeiro, o único nome criado a contragosto de Pascoaes.

4.

A criação desse heterônimo nasce da amizade entre Sá-Carneiro e o protagonista de nossa história, José Coelho Pacheco, quatro anos mais novo que Sá-Carneiro e 17 anos mais novo que Pascoaes. Até onde se sabe, o nome de Pacheco aparece pela primeira vez na revista de número único, A Renascença, em fevereiro de 1914, espécie de prévia da revista Orpheu. O autor assina um breve e misterioso diário com a também misteriosa rubrica: “Pela cópia, J. Coelho Pacheco.” Nele, entre outras coisas, Pacheco escreve: “Decididamente fiquei hoje satisfeito por ter atingido tão facilmente uma notoriedade que afinal me é bem justamente devida.” Começa aí então os anos de ouro de um dos mais reservados, desinteressados e radicais autores portugueses.

5.

O jovem de 20 anos já tinha afastado Pascoaes de Sá-Carneiro e iniciado a guinada ao criar, neste mesmo ano, Caeiro – o anti-Pascoaes. O chamado Dia triunfal – que na verdade são dois dias e não um – é a data da criação encenada do Guardador de Rebanhos. O esboço da carta para Casais Monteiro fala do dia 13 de março de 1914; na versão enviada, a data passa para o dia 8 daquele mesmo mês. Na verdade, esses dois dias correspondem às datas em que Pacheco e Sá-Carneiro batem o martelo sobre quem será Caeiro, heterônimo que passa a ser o “mestre”.

6.

Em 1916, com a morte do autor de A confissão de Lúcio, Coelho Pacheco passa encabeçar a aventura, escrevendo ou revisando tudo ou quase tudo que diz respeito ao projeto. Isso até sua morte em 1951. Aliás, com seu desaparecimento, é Mário Cesariny quem assume a dianteira dos trabalhos. Depois de muitos problemas, especialmente, com a vigília moral de tempos sombrios, o poeta dá lugar a uma série de autores, todos prosadores. O que explica o aumento – sobretudo, a partir dos anos sessenta – da publicação de cartas, notas, além dos textos que integrariam o Livro do desassossego.

7.

Não vou falar de outras voltas e reviravoltas. Basta dizer que ele, Coelho Pacheco, assina um texto com seu nome pouquíssimas vezes. Uma delas é a mencionada participação na revista A Renascença. A mais famosa, no entanto, só vem à tona quando aparecem os textos que estariam no cancelado terceiro número de Orpheu. Um dos últimos poemas da revista é de C. Pacheco – assim está assinado – e se chama “Para além doutro oceano”, extenso texto em verso que ocupa o lugar de destaque que, no número 2, é de “Chuva oblíqua” e o lugar que, no número 1, é de “Ode triunfal.” Três poemas longos que Coelho Pacheco estrategicamente separa para o bloco final de cada número.

8.

Na biografia desse secreto autor, o pequeno e decisivo gesto de fazer equivaler “Para além doutro oceano” a “Ode triunfal” e a “Chuva oblíqua” revela o plano de se tornar personagem do personagem que ele mesmo ajudou a criar. Ficção que finalmente se torna realidade em 1953 quando Casais Monteiro inclui “Para além doutro oceano” no livro Poemas inéditos ao nº 3 de Orpheu. Autor do livro: Fernando Pessoa. Logo em seguida, Maria Aliete Galhoz integra Coelho Pacheco como a quarta personalidade literária das “Ficções do interlúdio”, logo depois de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. É com os mais de duzentos versos de “Para além doutro oceano” que Galhoz encerra essa seção da Obra Poética, publicado pela editora José Aguilar a partir de 1960.

9.

Galhoz lembra que o poema está dedicado “À memória de Alberto Caeiro” e diz que, “numa nota de punho de Pessoa de um projeto de paginação de Orpheu 3, está assinado Coelho Pacheco.” Ou seja, o texto é dedicado a Caeiro e o nome de Pacheco escrito com a reconhecida letra de Fernando Pessoa. Anos mais tarde, em 1984, por ocasião da primeira publicação das provas gráficas desse número da revista, é Arnaldo Saraiva quem repara que, nele, ao contrário dos outros dois números, não há texto algum de um heterônimo conhecido. Diz então Saraiva que, no tal número cancelado, Pacheco substituiria Campos, nome que está com Pessoa nos dois números de Orpheu. Escreve ele: “Pessoa comparece duplamente nos três números: como ‘Fernando Pessoa’ e ‘Álvaro de Campos’ nos números I e II, e como ‘Fernando Pessoa’ e ‘C. Pacheco’ no número III.”

10.

Uma das estrofes de “Para além doutro oceano”:

Uma ave é sempre bela porque é uma ave

E as aves são sempre belas

Mas uma ave sem penas é repugnante como um sapo

E um montão de penas não é belo

Deste facto tão nu em si não sei induzir nada

E sinto que deve haver nele alguma grande verdade

11.

Pacheco e Pessoa, criador e criatura indistintos. A diferença é que o primeiro é ainda mais discreto que o segundo. Poucas foram as vezes em que um autor se sacrificou tanto em prol de uma criação. Quase invisível, Coelho Pacheco escapou de sua discrição poucas vezes. Acrescente-se aí a tradução que assinou, em 1937, de um romance menor de Jules Verne: A aldeia aérea.

12.

Em 1996, Manuela Parreira da Silva organiza Correspondência inédita de Fernando Pessoa. Entre as cartas, há uma de J. Coelho Pacheco enviada ao autor no ano de sua morte, 1935. Nela lemos: “Gostei mais de receber o seu livro do que se a minha fábrica me mandasse um automóvel ainda que fosse com dedicatória. Exagero muito pouco.” E continua: “Desde o tempo de Orpheu e da Renascença (talvez desta Você já se nem lembre apesar de para ali ter colaborado) sei de cor versos seus daquele tempo.” E depois de comentários sobre o poema “Mostrengo” de Mensagem, Coelho Pacheco diz: “Se tiver um minuto para me escrever duas linhas ou se quiser telefonar-me gostava tanto de saber se Você tem mais alguma coisa publicada em periódicos, para melhor conhecer sobre si o que, afora a Mensagem tenha produzido em verso. / Um grande abraço do velho amigo / J. Coelho Pacheco.”

13.

O papel da carta encontra-se timbrado com grandes letras azuis que formam o nome de Pacheco, informando não só seu trabalho (“representante de Automóveis Graham, Humber, Hillman e Aparelhagem eléctrica Scintilla”, todas indústrias de automóveis e peças) como também o endereço de seu escritório ou loja: “92, rua Braancamp, Lisboa.” Coelho Pacheco envia a carta tendo Pessoa como destinatário e o endereço é o do café Martinho da Arcada, na Praça do Comércio.

14.

Nas obras de Pessoa editadas em 1986 por António Quadros e Dalila Pereira da Costa, no poema “Para além doutro oceano”, há uma nota em que se diz que “não é conhecida a poesia deste sub-heterônimo, tendo-se já aventado que poderia trata-se de uma pessoa real, tanto mais que a família Coelho Pacheco era bem conhecida em Lisboa. Mas se assim fosse não se teria já acusado?”

15.

Diante desta e de outras evidências, Maria Aliete Galhoz escreve em 2007 o texto “O equívoco de Coelho Pacheco”, referindo-se à inclusão de Pacheco como um tipo de heterônimo. E, colocando Casais Monteiro em sua lista, ela diz que não está sozinha no equívoco: “As duas reedições de Orpheu 3 não desheteronimam mas analisam em perplexidade o poema.” Ela se refere as edições de Arnaldo Saraiva já citada aqui e a de José Augusto Seabra que já tinha dito que “Para além doutro oceano” em relação “à pluralidade da escrita pessoana acrescentava uma nova linguagem (um entrelaçamento de linguagem) onde uma diferente estranheza se lê.” Ao fim, Galhoz cita o tradutor Patrick Quillier, ele escreve que, hoje em dia, não se costuma mais considerar esse poema “bem medíocre” como de Pessoa, mas sim provavelmente de um filho da alta burguesia lisboeta. Galhoz – em meio aos textos e com a ajuda de Richard Zenith – localiza num percurso biográfico de Pessoa o engenheiro Geraldo Coelho de Jesus, sócio do poeta na firma F.A. Pessoa, escritório de comissões e consignações. Aliás, engenheiro de quem Pessoa pediu dinheiro emprestado. Geraldo – tio de Coelho Pacheco – é o dono do carro pilotado por Álvaro de Campos no poema “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra.”

16.

Por ocasião do verbete “José Coelho Pacheco” no Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português, a já citada Manuela Parreira da Silva faz um inventário de alguns dados biográficos, muitos dos quais estou me valendo aqui. Discutindo o problema da autoria ou não autoria de Pessoa de “Para além doutro oceano”, a certa altura escreve Manuela: “A favor desta autoria estariam as suas evidentes marcas pessoanas e a dúvida sobre a capacidade do verdadeiro Coelho Pacheco para fazer um poema de tão grande fôlego e qualidade. Arnaldo Saraiva, os citados Patrick Quiller e José Augusto Seabra, para não falar da própria Galhoz, todos já falaram de um incômodo com o poema em questão. Ricardo Daunt vê Coelho Pacheco como “um Caeiro canhestro, levemente futurizado.” Já Fátima Freitas Morna, por exemplo, chama o poema de “curiosíssima encruzilhada Caeiro-Campos.”

17.

No texto de Teresa Rita Lopes “O seu a seu dono: Pessoa desapossado de Coelho Pacheco”, publicado em maio de 2011, a história ganha novas pistas. A autora encontra uma das netas de Coelho Pacheco, Ana Rita Palmeirim, que finalmente apresenta não só o manuscrito de “Para além doutro oceano”, como também outros três originais de textos inéditos. A saber, os sonetos “Delirando...” e “Náufrago”; além do poema “A ideia que tenho do espaço”, texto de grandes afinidades – segundo a autora – com Caeiro e Campos. Nele pode-se ler versos assim:

Há uma coisa só que eu queria saber como é

E de que o ignorá-la me faz oscilar

Ela é esta ignorância em que sou

Do modo como há ligações entre o pensar eu as só minhas ideias

E o aparecerem elas escritas como se fossem de outra pessoa

18.

De volta ao duplo Dia Triunfal (8 e 13 de março de 1914). Vale dizer que o recém descoberto soneto “Delirando...” é de 10 de março de 1914, ou seja, ele foi escrito entre as duas datas da criação de O Guardador de Rebanhos. Nesse soneto, Coelho Pacheco, na contramão do nascimento de Caeiro, fala da descoberta de um inusitado morto. Sobre esse cadáver, Coelho Pacheco finaliza o soneto com a seguinte revelação: “E eu sofro muito…eu sofro muito quando o vejo / Porque esse corpo – horror! – só pode ser o meu.”

19.

Chegou a hora de o protagonista ganhar um rosto e – tendo em vista sua paixão por automóveis – nenhuma foto entre as que vi parece melhor que esta.

20.

A imagem anterior é uma das duas imagens com que o site cinept.ubi.pt ilustra o verbete da pioneira filmagem intitulada Chegada de Dois Automóveis Vindos de Paris Num Raid de Resistência. De acordo com o mesmo site, Coelho Pacheco “terá sido um dos condutores de um Chevrolet que chegou aos Restauradores a 9 de Novembro de 1919, vindo de Paris.” Na foto, das duas uma, ou ele olha com satisfação para alguém fora da imagem ou então acaricia com carinho o banco de couro de seu automóvel. Em qualquer uma das duas hipóteses, Coelho Pacheco está feliz.

21.

Numa noite de novembro de 1935, na rua Luz Soriano em Lisboa, o céu está claro e as estrelas brilham quando alguns personagens – que ainda não sabemos quais – chegam à tal rua, um policial manda que parem. Não podem passar, diz o policial, a rua está tomada por uma manifestação nacionalista, com banda e tudo o mais, hoje a cidade está em festa. O senhor Moitinho de Almeida, diz com autoridade, temos de chegar à clínica de São Luís dos Franceses, temos um doente a bordo. O policial tira o quepe, olha para os homens dentro do carro e coça a cabeça. Ouça, senhor, diz ele, vou deixar o senhor fazer um pequeno desvio, é contramão, mas neste caso podem passar, vire aqui à direita, depois à esquerda, e vai dar no Bairro Alto.

22.

Pessoa sorri, pois reconheceu Coelho Pacheco, um seu heterônimo raro, que lhe escrevera um poema obscuro e visionário, de estilo neogótico. O que Coelho Pacheco está fazendo ali disfarçado de policial? Talvez tenha sido enviado pelo mestre para lhe mostrar o caminho certo. Pessoa levanta a mão e faz-lhe um sinal esotérico. Coelho Pacheco também lhe faz um sinal esotérico. O táxi toma a primeira rua à direita, seguindo rumo ao hospital onde em seguida Pessoa vai morrer. Não vou entrar em detalhes. Basta dizer que quem assina estas páginas sou eu em meu livro Os três últimos dias de Fernando Pessoa – um delírio. Meu nome é Antonio Tabucchi e eu gostaria de agradecer a atenção e a paciência de vocês.

Meio da vida

1.

Dizem que Sérgio Buarque de Holanda adorava certo poema de Alberto Caeiro: “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, / Não há nada mais simples. / Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte”. E dizem ainda que, entre amigos, ele tinha uma forma bem especial de ler fazendo cálculos: basta utilizar as duas datas destacadas por Caeiro e dividir por dois. O resultado é uma terceira: a do meio da vida. Conhecendo-a, localizar então um ponto nos textos escritos nessa data ou em torno dela. Por exemplo, na obra de Machado de Assis, dizem que Sérgio brincava de buscar esse ponto secreto em A mão e a luva, romance publicado em 1874, quando seu autor (que morreria com 69) tinha entre 34 e 35 anos.

2.

Qual o verso de Carlos Drummond de Andrade está no meio de sua vida? Eu não saberia dizer, mas pelos meus cálculos o meio de sua vida está entre outubro de 1944 e agosto 1945. Essa data corresponde a publicação de A Rosa do Povo. Se no caso de Machado, o romance escolhido por Sérgio como lugar do ponto secreto surpreenda; no caso de Drummond, o poeta do ‘meio do caminho’, o livro em questão é considerado um dos grandes momentos da obra de seu autor.

3.

O caso de Manuel Bandeira nos leva para 1927, um período sem publicação de livros, três anos depois Bandeira publica Libertinagem. Apenas oito poemas desse livro estão datados; de 1927 consta apenas o poema “Cunhatã”. Ente vozes, esse pequeno retrato da menina termina assim: “O ventilador era a coisa que roda. / Quando se machucava, dizia: Ai Zizus!”. Com Bandeira, é possível ser um pouco mais preciso que com Drummond, um poema no lugar de um livro. Aliás, outra possibilidade seria procurar uma frase perdida nas crônicas que ele escreveu ao longo de 1927. Pedi ajuda a um amigo meu, ótimo leitor de Bandeira. Como quem encontra uma agulha no palheiro, eis a frase que ele me entregou, ela é de 17 de dezembro do tal ano: “Nesta cidade grande [Rio de Janeiro], onde os escritores para conseguirem agrado e respeito têm que passar descomposturas, um poeta contente de ser poeta é um elogio da Vida”.

4.

Para João Cabral a data é 1959. Nela, segundo consta, o poeta não publica livro, mas no ano seguinte aparecem Quaderna e Dois Parlamentos e em 1961 esses dois livros aparecem reunidos, juntamente com o inédito Serial, no volume Terceira feira. Segundo indicação do autor, os três livros têm textos de um período em que se inclui o ano 1959. Diferente de Bandeira, Cabral seria menos preciso (logo ele), três livros no lugar de um poema.

5.

Em Portugal os poetas vivem menos. Ou pelo menos é o que acontece com a maior parte daqueles que escolhi. O meio da vida de Pessoa me leva para fins de 1911. Nesse momento o autor nem estreou como poeta. É desse período, porém, os dois textos críticos que publica no primeiro semestre de 1912. É sua estreia em Portugal: “A nova poesia portuguesa: sociologicamente considerada” e “A nova poesia portuguesa no seu aspecto psicológico”. Num desses ensaios, Pessoa diz que está para surgir o Supra-Camões. Com a publicação dos rascunhos de Pessoa facilmente se encontram poemas dessa época. Mas, por melhores que sejam, a segunda metade da vida de Pessoa começa mesmo é com esses dois ensaios em que ele faz uma apresentação – perdoem a redundância – bem pessoana de si.

6.

O caso de Jorge de Sena é diferente, porque ele data tudo ou quase tudo com dia, mês e ano. Assim, serei mais preciso no cálculo do meio da sua vida. Lá vai: 17 de fevereiro de 1949. Quando comecei a escrever este texto, encontrei o meio da sua vida em dois poemas do livro Pedra filosofal, com datas próximas ao meu cálculo. Depois, com a publicação dos poemas inéditos, encontrei um datado em 14 de agosto de 1949. Mas vou ficar com uma frase de uma carta que enviou para Eugénio de Andrade em 25 de junho de 1949 que diz o seguinte: “Rimbaud – e era ele, que nada devia à delicadeza – acabou queixando-se: par délicatesse, j’ai perdu ma vie”.

7.

Tendo vivido pouco e publicado relativamente tarde, quando comparado aos outros autores, o meio da vida de Ruy Belo está em algum dia de 1955, ou seja, antes da publicação de Aquele grande rio Eufrates, seu primeiro livro, em 1961. Em 1955, o autor, então com 23 anos, se embatia com o catolicismo e estava a meio do caminho tanto de terminar, em Lisboa, seu curso de direito, quanto de defender, em Roma, sua tese intitulada “Ficção Literária e Censura Eclesiástica”. É engraçado que a metade numérica da vida de Ruy Belo esteja mais próxima de sua tese do que de seus livros de poema. Como mais ou menos acontece com Pessoa, os poemas de Ruy Belo pertencem inteiramente à segunda metade de sua vida.

8.

Sophia de Mello Breyner Andresen viveu 84 anos. O meio de sua vida me leva para 1961, ano de escrita de “A viagem”. Neste conto, que já foi considerado por César Aira como “o melhor conto de todos os tempos”, uma mulher e um homem estão a caminho de algum lugar que parece ser muito bom, mas nunca chegam ao destino. Eles se veem num lindo bosque que se torna tenebroso. Inúmeras vezes, o casal tenta regressar, mas nunca encontra o mesmo lugar por onde tinha acabado de passar. “É o meio da vida”, diz a mulher ao homem.

9.

Como já é possível perceber, este texto não é uma continuação do texto anterior, de título “A vida de Coelho Pacheco”. Isso não impede o próprio Coelho Pacheco de retornar ao livro. Mas ele aparecerá aqui não como autor de um autor, mas sim como autor de uma nota de rodapé. A conferir.

10.

Agora que o texto passou de sua metade, vale lembrar que numa conferência de 1978, intitulada “Durante muito tempo, fui dormir cedo”, o tema do meio da vida começa a ganhar algumas formulações especiais em Roland Barthes. Para além do biografema, o autor discute a biografia não como uma “bio-cronografia”, mas como “desejo de escrever” que escapa do peso de uma cronologia, “ordem puramente matemática dos anos”. Então Barthes se vê no meio da vida; e isso não tem a ver com a metade aritmética e sim com a morte de sua mãe: “o que me resta viver nunca mais será a metade do que terei vivido. Porque o ‘meio da nossa vida’ não é, evidentemente, um ponto aritmético; como é que, no momento em que estou falando, poderia conhecer a duração total da minha existência, a ponto de poder dividi-la em duas partes iguais?”.

11.

Para Barthes, o exemplo é Dante que inicia a Divina Comédia dizendo que está numa selva tenebrosa no meio do caminho da vida. “Em 1300, Dante tinha trinta e cinco anos (viria a morrer vinte e um anos depois)”. Apenas é possível saber a metade aritmética da vida daqueles que já estão mortos. E quanto àqueles que estão vivos, o que podem aqueles que estão vivos? Barthes retorna: “o meio da vida talvez não seja nada mais do que o movimento em que se descobre que a morte é real, e já não apenas temível”.

12.

Algum tempo depois pilotar pioneiramente um automóvel de Paris até Lisboa em 1919, Coelho Pacheco chega à segunda metade de sua vida, metade essa em que, parece, ele não assina quase nada, exceção feita à tradução que traz o seu nome, em 1937, do romance A aldeia aérea, de Jules Verne. Ao contrário de alguns autores cuja obra pertence sobretudo ou mesmo inteiramente à segunda metade da vida, a obra assinada de Coelho Pacheco pertence quase que exclusivamente à primeira metade. O mesmo acontece com Rimbaud.

13.

No romance A aldeia aérea, dois exploradores, John Cort e Max Huber estão numa expedição no coração da África e, ao fugir de uma violenta manada de elefantes, eles acabam por entrar numa floresta e lá se perdem. Ainda no momento em que estão fugindo dos elefantes, o mais destemido dos dois aventureiros, John Cort, diz para o seu amigo: “Ganhemos a floresta”.

14.

Jules Verne é um daqueles autores cuja obra pertence quase que exclusivamente à segunda metade da vida. A aldeia aérea é um de seus últimos livros, tendo sido publicado em 1901, quatro anos antes de morrer.

15.

Não vou entrar nos méritos do livro de Jules Verne. Nem nos méritos da tradução de Coelho Pacheco. Gostaria só de dizer que, para além da tradução em si, Coelho Pacheco intervém diretamente apenas uma vez em todo romance. Em meios aos perigos da tenebrosa floresta, ele introduz uma nota de rodapé numa das falas do aventureiro John Cort.

16.

Em meio aos perigos de uma tenebrosa floresta, estão os rinocerontes. Um destes animais neste instante persegue John Cort e Max Huber que, para escapar, sobem nas árvores. De tanto acertar o tronco com seu chifre, o animal fica preso nele. É quando os aventureiros descem da árvore e começam a correr, correm por cinco minutos. Até que se dão conta que o rinoceronte ainda está preso na árvore. E então lemos: “– Por Deus! – exclamou John Cort. – É o Mílon de Crotona dos rinocerontes!”. Logo depois do ponto de exclamação aparece a seguinte nota de rodapé:

Mílon de Crotona foi um atleta do VI século a. C., natural de Crotona, quase sempre vencedor dos jogos Olímpicos e Píticos. A sua força hercúlea tornou-se lendária. Reza a lenda também que, velho já, e querendo experimentar as suas forças, propôs-se fender de alto a baixo, com as mãos, um tronco já entreaberto. Porém as duas partes do tronco, unindo-se, conservaram-no cativo, até que morreu devorado por um leão.

Há no Louvre um grupo em mármore de Puget representando o colosso cativo, atacado pelo leão. (– Nota do tradutor)

17.

Acabo de descobrir que, em São Paulo, na praça Buenos Aires, há uma cópia do

grupo em mármore de Pierre Puget, Milon de Crotona. Por isso, antes de terminar este texto, vou até lá para ver a estátua com meus próprios olhos, porque, das fotografias da estátua que encontrei na Internet (por conta de seus ângulos), nenhuma deixa muito evidente como o grande Mílon de Crotona fica preso num tronco entreaberto.

18.

Mílon de Crotona, apesar de já entreaberto o tronco, não consegue parti-lo ao meio. Pior do que isso, as duas metades, mantendo-se unidas, prendem o grande atleta grego pelo braço, tornando-o presa fácil para o tal leão.

19.

Segundo o Wikipédia, a estátua de 1682 foi feita na segunda metade da vida de Puget. O artigo fala ainda da obra como representação de algumas coisas, entre elas, de como pode ser vão o esforço humano para cortar e dividir por conta própria as coisas. “Elas se partem sem o nosso controle”, acrescenta o texto.

“Um luto cruel,

um luto único

e como que irredutível,

pode constituir para mim

esse ‘cume do particular’

de que falava Proust;

embora tardio,

esse luto será para mim

o meio da vida”

Barthes

Fim