Sylvia Damiani

Nosso espaço recebe agora Sylvia Damiani, que nasceu em 1991, em São Paulo. Ela se formou em Letras pela FFLCH-USP, publicou Adultos não amam, livro independente de poesia pela Caixa Editora, e segue escrevendo. Nas últimas férias passou uma temporada na Argentina,

em Buenos Aires, mas o que escreve aqui, garante, é tudo ficção. Também fotografa e eventualmente desenha, sobretudo com palavras. No dia-a-dia, em horário comercial, é professora de italiano. Setembro | 2017

Doenças autoimunes, crise geracional, Humahuaca 3739

Fico pensando se você desencanou de mim porque te contei da minha tiroidite de Hashimoto e inevitavelmente seu instinto de homem da revolução falou mais alto: já que eu tenho uma doença, não sou boa o suficiente para dar continuidade à espécie, embora eu seja alta, forte e na maior parte das vezes resistente a quase tudo, incluindo catuaba no carnaval e frutas com alto teor agrotóxico.

Ou se foi porque, naquela hora da despedida, antes da minha partida, eu te abracei forte no carro e sem querer deixei escapar que saudade e você se assustou. Ou se foi porque tenho sonhado repetidamente com a sua ex e às vezes a gente se dá bem, somos amigas, e em outras a gente se estranha, compete por você. Ou se na verdade você nunca gostou de mim, embora me mande selfies regularmente e tenha me mandado uma mensagem de áudio que, consta no meu celular, eu já ouvi 18 vezes, com o único intuito de perceber as nuances da sua voz, e que fiz minhas amigas escutarem com a desculpa descabida de que gente, olha isso aqui que lindo e elas não entenderam nada. Fiz os cálculos para os próximos finais de semana e parece que só conseguiremos nos ver de novo no mês que vem, se tudo der certo, e olha que esse mês mal começou. Minha amiga disse que falta de tempo não é desculpa, e eu concordo com ela, quem quer arruma tempo, dá um jeito, nem que seja das dez às seis da manhã, mas prefiro acreditar que foi pela dificuldade logística que a gente não se viu mais. Me parece que não estava no script se apaixonar pelo crush. Eu não sei se você gostava de mim mas me pareceu que sim porque dançamos funk a noite inteira e você colocou pra tocar na festa uma música que dizia mi amor, mi amor, e cantou mi amor, mi amor pra mim, bem na minha frente, em meio ao tumulto e ao escuro da festa. E o destino também tem me dito coisas, como na quantidade de vezes que encontrei seu amigo na rua por acaso, e a cada vez ele me traz alguma informação valiosa, ele solta pedaços de você, e eu vou juntando, tentando, na medida do possível sem muita precipitação, entender o que se passa com você, e talvez entre a gente. Depois de três ou quatro pequenas mortes na sua cama, altas doses de ouro branco bancados pela sua mãe, o vibrador que chegou pelo correio - que minha amiga pagou por transferência bancária, já que mais uma vez meu cartão foi clonado em San Francisco, Estados Unidos, 86 dólares, e Araçatuba, tentativa bloqueada de 6 reais -, viajar é arriscado, abala a nossa identidade como pessoa física, é se expor demais, são números e dados sendo repetidos à exaustão, até que alguém escute lá em Araçatuba e lance para outro alguém lá em San Francisco, que continuará lançando, sem cuidado, até ser pego pela minha agência na Cidade Universitária. E chegará pelo correio mais um novo cartão, e tudo isso vai acontecer, todos esses telegramas e correspondências, antes que eu consiga ver você de novo. Sonhei também que descarregavam um imenso caminhão de mudanças, e não sei se era a minha mudança ou a sua mudança, já que está todo mundo de mudança ao mesmo tempo. E preferi não olhar muito pra isso, talvez não olhando muito o tempo passe e você, a Argentina e a casa velha sejam só uma fotografia na parede. A vida é um agito, a gente se gosta, mas ela me separa de você, ligeira e pá-pum, como parece prever aquela música cafoníssima da nossa geração que a gente ouve no repeat, sem cuidado. E como dói.

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Muy lejos de ti, nem tão lejos assim

Chorei um pouco assim que o avião pousou, antes mesmo que cessassem os avisos para apertarmos os cintos, até porque havia acabado de assistir a Un otoño sin Berlín, que me tocou profundamente, como qualquer filme em que uma protagonista mulher faz as malas, chora e foge. Fui apagar nossos registros de conversa dos últimos meses mas me deparei com frases bonitas tipo tenho feito cada comida boa aqui que você ficaria emocionado ou muitas bicicletas por aqui mesmo no frio. Uma vez um amigo da minha mãe foi para Amsterdam e me mandou um cartão postal que dizia aqui todo mundo tem a sua bicicleta, e fiquei imaginando como deveria ser bom viajar para outro país e ainda poder ver as bicicletas dos outros. Ele também me trouxe um casal de bonecos de porcelana que durou anos, até que, numa queda da prateleira, o homem quebrou a perna, ficou destroçado, eu chorei à beça e enterrei os dois. Minha amiga me manda um pequeno mapa do tempo, que ela mesma construiu, e fico pensando nesse tempo todo longe de você. Desenho também meus próprios mapas: preciso aprender a me locomover no terreno alheio, nesse país dos outros. De todas as calles, gostei especialmente daquelas que são longuíssimas, que me levam para todos os lugares, e que me permitem percorrer os bairros como se fossem o seu corpo. Caio doente por quatro dias, tenho febres horríveis, pesadelos, o lençol amanhece suado e azedo. Estou presa no meu próprio corpo, não consigo encostar em você. Depois de muitos dias de chuva, finalmente o tempo abre e decido ir à praça tomar sol. Sinto tonturas, carrego uma mandarina no bolso para emergências. Escolho para quem pedir ajuda no caso de achar que vou desmaiar. Em certos momentos tenho certeza de que vou morrer, e não me parece má ideia. Volto pra casa mais pela segurança do corpo do que pelo sol que se põe. Paro para comprar arroz, para comer com papas, única coisa que meu corpo tolera nesses dias, sin sal. Vejo uma mulher que prende os cabelos com uma lapiseira de grafite 0.5 e penso que queria ser mais alguém que prende os cabelos com uma lapiseira e sai à rua do que alguém que sabe reconhecer espessuras de grafite na cabeça dos outros. I've been on a journey, diz a música que toca no mercado, e eu concordo. Vou para ficar sozinha, eu te disse na festa, já em espanhol. Tengo ganas de estar sola e de ler alguma coisa de poesía argentina. Não sei se você entende do que estou falando. Os suores e as tonturas não passam. Digo à minha mãe que a coisa apertou e talvez eu precise voltar antes. Ela recomenda que eu aproveite, que coma barras de chocolate com amêndoas e me sinta forte, e eu, de estômago 100% embrulhado, penso a minha mãe. Tengo ganas de chupar laranjas, saio à rua, compro uma dúzia de laranjas, deixo-as em cima da mesa e vou chupando, uma a uma, o azedo delas me recompõe e me traz alguma esperança. Não é à toa que existe a expressão lovesick: estou doente, de novo. Me lembro que lemos na aula uma história que se chamava l'amore impossibile, e concluo que talvez todo amor seja assim mesmo, impraticável, uma espécie de idioma estrangeiro no qual a gente nunca fica fluente, não importa o quanto estude e se dedique; um tipo de mapa desenhado à mão, frágil, cheio de falhas, lacunas, ruas ausentes; uma cabeça cheia de dúvidas, e essa febre que chega de madrugada sem aviso prévio e nos faz delirar. Conheço na rua um homem que tem o seu nome. Eu repito o seu nome, em choque, e ele acha que eu não entendi, que se trata de um nome estranho pra mim, e repete mais três vezes, soletra, me ensina, o seu nome. Será sempre um embate, um suor frio, umas mãos suadas, penso, se eu estiver escrevendo é porque está tudo bem, essa era a mãe que eu tinha.

Destruir a ideia de casa, construir a ideia de casa

Sempre achei que houvesse entre mim e o mundo, na maior parte do tempo, uma coisa que me separa, uma estrutura estranha, rígida, que me mantém distante de tudo, à parte. Nesses momentos, tudo que toco é estrangeiro, nada me pertence. Ontem eu encontrei um caderno na rua, entre a Billinghurst e a Santa Fe, e estava escrito esse lugar foi um achado, excelente, mobiliado, aluguel mais barato que já vi. Era você procurando um apartamento pra morar, dessa vez sem mim, melhor custo benefício, e era eu sozinha nesse departamento alquilado. Departamento, essa palavra eu achei engraçada, você nem prestou atenção.

Você me diz se eu for passar uns dias aí, você me receberia? Primeiro penso que sim, depois decido que não, você também muda de ideia e não aparece. Ficamos por isso mesmo, mas acordo sobressaltada, coração na boca, pensando na sua possível chegada sem me avisar, bem ao seu estilo. Visto as três camadas de roupa (quero arrancar todas). Quando você chega vamos a um café em que, descobri depois, se conheceram Aurora y Julio - Aurora y Julio que, imagino, você não saiba quem são, mas são coisas que me interessam. Você me diz pupila quer dizer boneca, se chama assim porque quando olhamos nos olhos de alguém é como se víssemos um boneco de nós mesmos. Você me diz tudo isso olhando nos meus olhos, depois se desvencilha, escapa das minhas mãos, vai embora.

¿Qué estás buscando? me perguntam todos os dias, nas livrarias, nos supermercados, como se eu soubesse pronunciar aceitunas descarrozadas, como se tivesse algum cabimento eu ter vontade de comer azeitonas assim, sem mais nem menos, com queso, tomate. Gasto um tempo procurando um pão que não existe aqui, mas só na minha casa, e o vendedor de pão me diz que sou bonita, muy linda, só porque eu era uma brasileira sozinha comprando pão. Volto pra casa só para tomar té y café, me entupo de dulce de leche e guardo os endereços das medialunas da Agüero com a Las Heras e dos alfajores de maicena da Pueyrredón – todos esses nomes de rua que não sei pronunciar, mas que construo na minha cabeça.

Ontem à noite eu também quebrei um copo no chão no banheiro. Quando acordei tive medo de me cortar nos cacos – não me esforcei para recolhê-los todos, fui displicente. Mas se você chegasse, eu sei, eu os recolheria, eu faria mesmo um bom serviço em sua homenagem, para que você não achasse que quando está comigo corre o risco de pisar nos cacos que eu deixo espalhados pelo chão. Fiquei também pensando se era necessário repor o copo no apartamento, buscar um novo que fosse igual, morar na casa dos outros tem dessas coisas. Acabei comprando um livro que ensina a dibujar personajes y animales – misturo tudo e tenho desenhado alguns cachorros de gravata borboleta, umas baleias que sorriem.

Minha amiga me mandou tomar helados, ela disse que me curaria. Eu nem gosto tanto assim de helados, muito menos nesse frio, mas obedeci. Me lembro de você dizendo chocolate não se mastiga, sua voz ecoando feito uma rádio mal sintonizada. Compro o chocolate e mastigo a barra inteira, tablete por tablete, não deixo nada pra você. Essas coisas que você me diz, eu passaria sem nenhuma droga, algo sobre me prender na cama, um olhar seu mais atento buscando algo sobre a mesa, nossos óculos repousando juntos enquanto a gente dorme. Nego todas as suas teorias: é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo, dois corpos ocupam, sim, o mesmo lugar.

Decido cortar o mal pela raiz e não atendo o telefonema no qual você me enumeraria as razões pelas quais não pode mais me ver. Entrego os pontos, embaralho os cabelos pra cima, caminho com cara de maluca. Me lembro que às vezes, no jogo de vôlei, a gente desistia da partida - mas eu já me joguei muito no chão na tentativa de salvar o time, sozinha.

(Tudo isso eu descobri no caderno, nas notas de uma outra pessoa que o perdeu, mas que agora estão seguras comigo)

Ano do cão, pílula do dia seguinte, a sua idade não me interessa mais

Talvez seja porque eu deixei que crescessem todos os pelos do meu corpo, inclusive o cabelo, e eu não seja mais o tipo de mulher que você poderia apresentar à sua mãe.

Minha amiga diz que se ele quiser ele vai ligar, que eu não preciso ficar atrás. É só esperar, ela me diz, essa ligação chega que nem lua cheia e Papai Noel. Seu amigo me pergunta você gosta de gato, de cachorro? Eu digo que sim, mais ou menos, gosto às vezes, não gosto quando eles me mordem, rasgam minha calça, arrancam um pedaço da minha perna, e eu fico pensando se devo tomar vacina. Às vezes me dá medo de ter alguma doença sexualmente transmissível. Eu respondo algo que, aos olhos dele, me faria parecer com você. Sou boa atriz. Ele acredita. Eu gosto do jeito como você envolve minha cabeça com as mãos e me beija, como se estivesse me ensinando algo ou me repreendendo com amor por eu ter feito alguma besteira. Se eu telefonasse seria só para te dizer isso. Mas você sabe que eu detesto ligações, fujo delas como fujo do meu país quando tudo dá errado. Já estou planejando minha próxima fuga, inclusive. Me parece que desse ano eu não passo mais. Você deve estar em outro continente, passando frio, torcendo pra nunca mais passar calor comigo. Eu tive um delírio em que eu percorria o Atlântico pelo ar, voando bem perto do oceano. Eu chegava em qualquer lugar e não tinha custo algum. O mar mediterrâneo é salgado demais, Cabo Frio nem foi tão ruim assim, também o nosso amor talvez tenha sido quente e salgado demais (era você que exagerava na quantidade de pimenta). Detesto que me digam romântica. Quase ninguém conhece o peso real dessa palavra. Você achou que essa minha cara redonda era porque eu estava grávida de você. Como é possível que te passem essas coisas pela cabeça e não as outras? Você só usa calça jeans, faz queijo-quente de manhã tão bem, mas a gente só acorda ao meio-dia. Eu passaria a vida bebendo baldes desse seu café, mas você não bebe comigo. Você para por 5 minutos na frente do fogão e com o improviso da geladeira promove um milagre. Você é um chefe.

Na Argentina vende pó de café com açúcar. De que serviu você me ensinar a beber sem? Pensei agora algo horrível: que você exagera na quantidade de pimenta pra eu conseguir comer menos e você poder comer mais. Você é todo feito de mapas, interminável. Eu, no escuro, estou te mapeando. Já foram 5 os comprimidos pra dormir. Quantos pesos custa pra comprar esse donut? Seu paladar é tão infantil. 350 pesos pelos Fragmentos de un discurso amoroso, e a edição ainda é linda, cor-de-rosa e branca. Sua mãe iria gostar.

Cómo vivir para siempre

Ou talvez seja porque você tem bebido e fumado demais. Ou porque se esqueceu do meu aniversário. Tento desastrosamente começar uma carta. Preciso que você esteja ausente para escrever. Fiquei esperando resposta sua. Onde foi que você se meteu? Já faz quase um ano que tudo aconteceu e ainda sinto na mesma medida aquele frio desamparado na espinha. Por que esses sentimentos nunca me abandonam, mas ficam me rondando como numa coleção fajuta de significados? Então é aqui que você se esconde. Suas pupilas dilatadas são de paixão ou de intoxicação química? Taí um defeito de ter esses olhos tão transparentes. Eu fiz tudo pra você gostar de mim. E meses depois lá vem você todo lindo rebolando na avenida. Fugi para me afastar desse cenário, e se por acaso a gente se esbarrar vou engolir um ar seco e depois ficar espantada por sete dias. Essa cidade é cheia de entulhos, já te vejo com medo de alergias, me pedindo pra passar pomada em você (o que me soa excessivo agora mas eu faria com todo o cuidado). Seduz mas não se apaixona, você tem razão, jamais esse exagero. Também não sou assim infinitamente tolerante - prefiro ficar só a sofrer perto de qualquer outra pessoa. Melhor sexo da sua vida - vê-se mesmo que transou pouco. Isso você fala só para me ferir. Diane Arbus no museu me olha preocupadíssima. Deve estar na minha cara que eu me perdi. Me meto em qualquer sessão das 20:00 para me acalmar. Você me disse que os problemas estavam lá adiante, movimentando o braço bem para lá, mas que você estava aqui ao meu lado - alguns povos envolvem o corpo do cacique numa pele de onça. Essa coisa toda parece um incêndio, uma chama que a gente não consegue conter e bota tudo em questão. O momento em que a gente duvida é fatal: tudo que é grave parece menor se observado a uma certa distância, mas o que estávamos fazendo ali juntos e o que eu vim fazer nessa cidade? (Na última semana sofri quatro vezes: por você não estar aqui; por ter te perdido; por sentir culpa pelas discussões; por tudo que vivemos me assombrar como um fantasma). Fecho a janela só para poder abri-la no dia seguinte. Quero criar um ritual para quando as relações terminam: um certo café que tomo em um tal ponto da cidade, voltar meu corpo para outra direção, quase um passo de dança sobre cristais líquidos. Você choraria de susto e depois tomaria calmantes fitoterápicos. Prefiro quem dorme roncando depois da garrafa de gin. A integridade é uma merda: quero a bagunça da intimidade compartilhada. Se você voltasse eu te receberia de braços abertos, a mesa posta, cada coisa em seu lugar, e um pouco de desordem para disfarçar. Algo em mim só queria se deitar ao seu lado e adormecer. Sua voz é um bálsamo. Visto meias de avião. Leio Cecilia Pavón para pegar no sono. Sempre prometo nunca mais deixar alguém me ver tão de perto. A gente nunca sabe se é amor ou dependência farmacológica, mas era essa a luz que eu estava buscando.