O rio nem sempre beija o mar


por Graça Ramos

Quais teriam sido os efeitos no imaginário coletivo do rompimento da Barragem do Fundão, que atolou o Rio Doce com milhões de metros cúbicos de lama constituída por rejeitos de minerais pesados? A pergunta me persegue desde as primeiras horas em que a catástrofe passou a ser anunciada, na primeira semana de novembro de 2015. Analisei o noticiário, assisti palestras, comprei livros, frequentei exposições de fotografias, tudo na tentativa de entender as repercussões no campo do simbólico provocadas pela calamidade que desestruturou o ecossistema de um dos mais belos e importantes rios brasileiros. Como resultado dessa incursão intelectual solidária, essa resenha identifica e analisa alguns dos produtos culturais que se debruçaram sobre a tragédia vivida pelo Doce (1).

***

Seis meses após o rompimento da barragem da mineradora Samarco, que transformou o Rio Doce no mar de detritos, o poeta Carlos Nejar lançou A vida de um rio morto: monumento ao Rio Doce (2), poema épico em que o herói é o rio. Serpente de água que os índios Krenak, habitantes de suas margens, gostavam de reverenciar com cantos para agradecer a abundância de alimentos e, hoje, na imagem anunciada pelo poeta logo na abertura do poema, proclama a própria morte.

"Eu fui chamado Rio Doce

E conto: virei defunto.

Minha pisada é no susto.

Erro sem vara e sem grão."

Assim, com uma rudeza rara para sua dicção poética, Nejar enfrentou o desafio imposto a si mesmo de criar “um memorial coletivo de um tempo de barro” (3). Navegando pelo Doce, por sua história, seus habitantes, sua geografia, sua economia, o poeta descortina um Brasil que se afunda em desmazelos, corrupção, e também em dor. Portanto, quem se interessar em ler o longo poema, um dos mais extensos de nossa tradição literária, esteja preparado: as representações simbólicas não deixam dúvida de que naufragamos em lodo.

Se rios beijam o mar, à moda do sucesso pop da banda Biquini Cavadão (4) e conforme ocorria antes no encontro do Doce com o Atlântico, ou encontram rumorosamente os oceanos, à maneira da pororoca na foz do Amazonas, o poema de Nejar abraça o rio em ondas de dicção modulada. Mas a contenção dessas estrofes pareadas se transforma em canto elegíaco de pulsão intensa. Forte é o rumor desses versos que nos lembram também da beleza e da força de terra tão rica e explorada, a ponto de não suportar a pressão e explodir, soltando labaredas de massa marrom na cama antes doce:

"O solo férreo das sílabas

Que o martelo, então, fabrica

E o rumor de faíscas?

Árduas, tão árduas como

O entardecer da lâmina,

Ao ter no fojo, fogo

E donde este insumo

De uma morte tão dada

Que não percebe o rumo,

E extraviou-se nas larvas

Ou não extravia o sumo

Deste pêssego de nadas?"

Longe estou de tentar transformar a leitura dessa elegia contemporânea em algo simples e palatável. Desde os gregos, elegias e poemas épicos sempre mantiveram “apreciável semelhança” (5). No caso do poema de Nejar, a afinidade se amplia, se transformando em um híbrido, pois se trata do canto a um morto inumano, estruturado segundo a tradição do poema épico: quando um protagonista tem sua vida exaltada e narrada, normalmente, com estrofes compostas de dois versos.

A estratégia poética de Nejar aproxima-se daquela utilizada pelo poeta norte-americano Hart Crane, em A ponte (6), o longo poema lançado em 1930 que a crítica usualmente considera como sendo exemplo de um épico modernista. Se o último concentra-se na imagem da ponte do Brooklin, o primeiro tece suas metáforas ao redor do Doce. No caso do brasileiro, os versos-tentáculos lançados pelo poeta abraçam também uma miríade de temas vinculados, demonstrando que a existência de um rio desdobra-se em muitas vidas.

O emparelhamento evoca a imagem do leito do rio imobilizado pelo excesso de ganâncias e dominado pela lama de minérios. A começar pela forma, constante que se mantém ao longo de 169 páginas, nada na trama de Nejar se desvela com facilidade, pois, “a verdade não tem cor, tem água”, diz um dos versos. E o leitor sabe ou intui que a água, a depender das circunstâncias, adquire formas e cores as mais variadas, pode ser quente ou fria, e costuma se moldar a diferentes modos de contenção. Mas quando transborda causa transtornos, como ocorre com algumas verdades.

O poema está construído sob a forma de diálogo entre o poeta e o rio, conversa que termina por revelar outro personagem, o país em que vivemos. Afinal, se trata do “rio de um Brasil no espelho,/ ou espelho que se desfaz”, imagem que, alerta o poeta, a realidade açoita. Talvez preocupado com a recepção do poema que nomeia o que muitos no país insistem em não querer ver, escrito em época na qual divisões ideológicas e políticas impedem diálogos e afetos, Nejar, no pósfacio, alerta que “aqui, se há visão crítica, não é de partido, salvo o do rio, do Brasil e do humano”.

Ainda conforme explicou no posfácio, parte dos versos foi escrita em Vitória, capital do Espírito Santo, estado que habita e onde o Doce deságua – ou desaguava? – para virar mar. As estrofes impuseram-se ao longo de três meses, período em que as mídias traziam muitas notícias sobre o desastre que destruiu Bento Rodrigues, distrito de Mariana, no vizinho estado de Minas Gerais; matou quase duas dezenas de pessoas; destroçou importantes ecossistemas ao longo de centenas de quilômetros de extensão do rio, dificultando a sobrevivência daqueles que dependiam do Doce. E provocou ondas de migrações internas, o que leva o poeta a narrar em “Notícias do rio e a emigração”: “O que transporto é de foice/ cortando o afiado não,/ Sem ter roçado na sorte./ Quando emigra a viração”.

Na vida cotidiana, a lama ainda se faz obstáculo para populações que teimam em sobreviver junto ao que eram as margens do rio, “gente que perdeu gente, gente que perdeu bens materiais, gente que perdeu as referências do passado, gente que ganhou traumas e cicatrizes” (7). O poeta, ao perceber que “o rio comove movendo-se morto ao cais” (8), desdobra-se em novo desafio: o de prospectar um futuro.

Feita a exegese dos motivos que levaram ao desastre criminoso, a dicção poética ganhou novo ritmo em forma de pergunta, a vislumbrar uma “vida maior que a vida” para o Doce em um mundo de excessivos desmazelos: “Não é porque te mataram,/ Que te matarão de novo. / Não é porque já mataram/ Os desejos de teu povo,/ Ou muitos deles secaram,/Que te matarão de novo?/ Mas é porque te mataram,/ Que persistes, subterrâneo”.

Membro da Academia Brasileira de Letras, Nejar foi dos primeiros intelectuais (9) a introjetar a consciência da catástrofe e transformá-la em produto artístico. Se, conforme Le Brun (10), a noção da catástrofe implica em uma reviravolta da relação do humano com o inumano, o poeta foi ágil em assimilar e se posicionar, contrariando individualmente, com sua ação poética, a certeza da teórica, para quem, na contemporaneidade,

"as últimas transformações do sentimento da catástrofe dão sinal de que não só nossa relação com o inumano se torna cada vez mais difusa como também de que o homem se torna cada vez menos homem" (11).

O poeta apreendeu o fenômeno catastrófico de maneira mais ampla do que um mero infortúnio da explosão da Barragem da Samarco. Soube ler que tudo resultou de omissões, imprecisões e adiamentos (12), comportamentos típicos de certo modo de agir brasileiro. Por isso, não temeu exaltar-se e imaginar “que ao sentir-se devorado,/ tudo engolisse a rugir./ Cuspindo barro a soldo,/ Ou sem vintém, mas de tanto/ Bramir: não se sabe quanto/De lodo saiu fogo”.

Nejar, ao prantear o Doce, homenageia também outros rios e seus poetas. Fala do Capibaribe, de João Cabral de Melo Neto; relembra o São Francisco e o associa a Guimarães Rosa; se recorda do Guaíba de sua terra natal, onde o poeta conversou com os peixes. Recupera nossa história poética associada aos rios em um encadeamento de imagens e sentidos que expandem a ideia de que rios são monumentos que devem ser cuidados e preservados.

Em sua homenagem ao rio Doce, pontuada por reproduções de obras de Picasso, Nejar usa do artifício de recuperar formas poéticas mais tradicionais para falar com coragem e, por metáforas, de questões pertinentes à atualidade: a sustentabilidade do meio ambiente, a necessidade de se recuperar sentidos éticos para a política e a preocupação com a imposição de migrações. Constrói, assim, uma alegoria sobre a vulnerabilidade do ser (o rio) contemporâneo, constantemente “ameaçado por ondas consistentes” (13). O poeta sabe que rios e mares estão umbilicalmente interligados, que o segundo, ao se sentir devorado por lama, costuma reagir como “vulcão irado” (14), pois, recorda Nejar: “o que o mar guarda de rio/ é de ter água-furtada”.

Infantojuvenil – Na avaliação de espaços que o rompimento da barragem ocupou no cenário cultural, o produto que compete com o livro de Nejar em força simbólica se dirige ao universo infantil. Leo Cunha preparou o texto verbal e André Neves, o visual. Resultado: Um dia, um rio (15), lançado quase um ano após a catástrofe, época em que outros produtos culturais (16) também abordaram o desastre.

Poderíamos chamá-lo também de uma elegia destinada às crianças. Não segue uma forma métrica, prefere se expressar de maneira mais livre, recorrendo a quadras. O texto exprime um canto de dor que possibilita a meninas e meninos compreenderam a dimensão trágica do ocorrido ao Doce, que, a princípio diz: “UM DIA EU FUI UM RIO,/ BACIA,/ VALE./ EU ERA MELODIA”. Mas, que ao ser inundado pela lama, que só aparece no texto visual, chora e se lamenta: “COM LÁGRIMAS DE MINÉRIO, VOU SANGRANDO ATÉ O MAR”.

"MEU LEITO VIROU LAMA.

MEU PEITO, CHUMBO E CROMO.

MINHAS MARGENS, TRISTEZA.

EU ERA DOCE,

HOJE, SOU AMARGO."

A narrativa, feita em primeira pessoa pelo Doce, se apresenta toda em letra de forma maiúscula, considerada a ideal para o processo de alfabetização das crianças – por serem caracteres de traçado rapidamente identificável e usados de maneira isolada e não emendados uns aos outros, como ocorre com a letra cursiva. Um dia, um rio é ideal para a sensibilização ecológica, pois o rio conta sua desventura relembrando belamente como era: “CAMA DE CANOA,/ ESPELHO DA LUA,/ CAMINHO DE PEIXE,/ CARINHO DE PEDRA.”

A criança é acolhida nas páginas iniciais por as imagens que amplificam o texto visual, com cenas alegres que remetem ao passado de fruição vivido naquelas águas. Surgem páginas dominadas pela cor vermelha e por peixes vivazes, ou brancas repletas de crianças e adultos em interação com o leito de água. Mas, de repente, um monstro feito com colagens de materiais expele um líquido estranho e a superfície ganha densa cor de lama, povoada por esqueletos de peixes.

Embora dirigido ao leitor criança, em momento algum a composição verbovisual diminui a força da tragédia. Ao expor a desordem provocada, deixa claro para os pequeninos que a devastação da natureza provoca muitos outros problemas. Em ritmo de cantiga, elenca danos intangíveis, que dizem respeito à paisagem comunitária construída por cada cidadão a partir de seu ambiente social, de suas margens afetivas:

"TIVE UMA PRAÇA,

UMA IGREJA,

UM SINO.

UMA NOIVA.

OUVIA O CANTO DAS LAVANDEIRAS,

AS FESTAS DE DOMINGO."

Em Um dia, um rio, as imagens gráficas e as poéticas impedem que o livro seja rotulado como pertencente ao gênero informativo – com a intenção explicita de ensinar algo às crianças. O efeito é levá-las a se envolver com o rio, a conhecer sua forma de ser, e por ele se encantar. Mas, se lidas por um leitor fluente, a composição parece indicar que a “deterioração da natureza caminha em paralelo com a do imaginário”, usando novamente palavras de Le Brun (17).

Em tempos de imaginários sequestrados, os dois livros dedicados ao Doce se assemelham para além da escolha da voz narrativa – o rio morto e o rio amargo. Como Nejar, Cunha e Neves também teimam em prospectar o sobrevir:

"FLORES NASCEM NO DESERTO,

A ÁGUA BROTA NA ROCHA

E A LUZ, DA ESCURIDÃO.

SEREI UM RIO.

UM DIA."

Meses depois da primeira leitura, regresso aos dois livros de ode ao Doce e relembro Le Brun, quando a ensaísta diz “como a poesia nos faz sistematicamente ‘ver as coisas onde elas não estão’, ela é a catástrofe que cria sentido” (18). Por derivação, me transporto aos rios que fortaleceram minha infância – o Parnaíba e o Longá, no Piauí – e a outros que vi passar (19) e relembro leituras que recuperam o imaginário brasileiro sobre a origem das águas, que é também regresso a modo de pensar poético.

Refiro-me a uma das mais belas lendas indígenas, alimentada pelos Krenak, que busca explicar como as águas vieram ao mundo. Se hoje cobra grande manda nas águas, em tempos remotos somente o beija-flor possuía água na terra, até que uma arara o seguiu para descobrir o segredo, conforme conta Munduruku:

O beija-flor deu um mergulho na água, saindo logo em seguida, e a arara, que estava bem atrás dele, se assustou, batendo suas grandes asas sobre as águas. Com isso ela espalhou a água em todas as direções, formando os rios, cachoeiras, córregos e lagos (20).

Os Krenak, um dos povos mais afetados pela catástrofe, os demais habitantes de suas margens, aqueles que foram expulsos de suas casas em busca de outros leitos, e os autores dos livros dedicados ao Rio Doce, todos parecemos à espera de um novo encontro entre o beija-flor e a arara.

Notas:

(1) As primeiras ideias sobre o tema foram apresentadas em outubro de 2016, durante aula-palestra, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em disciplina ministrada pela professora doutora Rosana Kohl Bines, a quem agradeço o convite.

(2) NEJAR, Carlos. A vida de um rio morto: monumento ao Rio Doce. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2016.

(3) NEJAR, Carlos. Idem, p.171.

(4) "Um rio sempre beija o mar" é o título da música da banda que tocou nas rádios a partir de fevereiro de 2017.

(5) MASSAUD, Moisés. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix,1978, p. 167.

(6) CRANE, Hart. A ponte. Lisboa: Relógio D’Água, 1995.

(7) A frase foi retirada da abertura da série de reportagens “Vozes de Mariana”, produzido pelo jornal Estado de Minas. Acesso em <http://www.em.com.br/vozes-de-mariana/>. Em que pese possíveis pressões políticas e econômicas que o periódico deve ter sofrido em função da proximidade com o local da catástrofe, o jornal conseguiu realizar uma boa cobertura, ao optar por dar voz às vítimas. Em reconhecimento, ganhou o Prêmio de Jornalismo Promotor de Justiça Chico Lins, dado pela Associação Mineira do Ministério Público.

(8) A expressão compõe desenho realizado pelo artista plástico Eduardo Viana, pertencente à Lúcia Elena Figueiredo Neto, em Recife (PE).

(9) O fotógrafo Christian Cravo um mês depois da trajetória desembarcou em Mariana e em julho de 2016 lançou o livro de fotografias Mariana (Salvador: edição do autor). Composto de fotografias pungentes, as imagens, contudo, se aproximam mais do campo do documental do que propriamente da livre criação.

(10) LE BRUN, Annie: O sentimento da catástrofe: entre o real e o imaginário. São Paulo: Iluminuras, 2016, p. 45.

(11) Idem, p. 79.

(12) Cotejar DIEGUEZ, Consuelo. “A onda – uma reconstituição da tragédia de Mariana, o maior desastre ambiental do país”. Em Piauí, Rio de Janeiro/ São Paulo, número 118, julho de 2016. A repórter dá voz às vítimas e narra onde estavam, no horário do acidente, autoridades e diretores de empresas vinculadas ao desastre, em um dos mais lúcidos relatos sobre a catástrofe.

(13) Tomei emprestada a expressão do jornalista Ezio Mauro em BAUMAN, Zygmunt e MAURO, Ezio: Babel – entre a incerteza e a esperança (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 13.)

(14) Foi a imagem de um vulcão irado, tal como a construiu Nejar, que me veio à cabeça ao ver as fotografias produzidas por Cristiano Mascaro e Pedro Mascaro para o ensaio “A terra devastada– as marcas da tragédia sete meses depois”, publicado na Piauí, número 118, já citada. Posteriormente, em setembro, as fotografias e as imagens feitas com drone foram exibidas no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, sob curadoria de Sérgio Burgi.

(15) CUNHA, Leo e NEVES, André. Um dia, um rio. São Paulo: Pulo do gato, 2016.

(16) Ainda no universo infantojuvenil, Ana Rapha Nunes lançou Mariana, com ilustrações de Karen Basso (Curitiba: Inverso, 2016), para leitores adolescentes. Embora traga muitas referências ao desastre do Doce, a tragédia funciona, em minha opinião, como pano de fundo para o romance entre dois jovens, não sendo uma narrativa sobre o rio.

(17) Le Brun, Annie. Idem, p. 80.

(18) Idem. Ibidem, p. 83.

(19) Quando finalizava este artigo, a escola de samba Portela ganhou o carnaval de 2017, no Rio de Janeiro, com homenagem aos rios do mundo, privilegiando as lendas sobre eles, mas relembrando em uma de suas alas e um dos seus carros o desastre socioambiental de Mariana. O samba-enredo vencedor evocava a música de Paulinho da viola, Foi um rio que passou em minha vida, clássico lançado em 1970.

(20) MUNDURUKU, Daniel. Vozes ancestrais – dez contos indígenas. São Paulo: FTD, 2016, p. 40.

Graça Ramos é mestre em literatura pela UnB, e doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona. Autora de Ironia à brasileira: o enunciado irônico em Machado de Assis, Oswald de Andrade e Mario Quintana (Paulicéia) e Maria Martins: escultora dos trópicos (Artviva). Pela Autêntica, publicou A imagem nos livros infantis: caminhos para ler o texto visual (Selo Altamente Recomendável da FNLIJ) e os infantis Casa do Sabor e Vamos voar as trancinhas?, com ilustrações de Francisco Galeno.