Julia Wähmann


Ela nasceu em 1982, no Rio de Janeiro. Escreve para o site Ornitorrinco desde 2014. Em 2015 publicou as narrativas Diário de Moscou (Megamíni/ 7Letras) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016 Cravos (Record). Essa é a mini-bio de Julia Wähmann, nossa primeira convidada aqui. Com ela e seus escritos, “temporada” irá nos evocar o que em geral se chama, muito sugestivamente, um “espaço de tempo”: o tempo espacializado pelos movimentos do corpo, numa dança. O tempo do corpo, que se dispõe aqui a agir, com uma insistência entre melancólica e cômica, para narrar a aventura desmedida de ensaiar uma volta ao passado.

Dezembro | 2016 - Março | 2017

A volta

Hematomas: 2 (joelhos)

Comprimidos: 6 (3 dias, 12/12h)

Tenho pernas e braços longos. As pernas somam 1,88m. Os braços, 1,44m, cerca de 1,84 de envergadura, com uma margem de erro de quem se automediu. Nos dias em que não pratico yoga, tenho 1,70m de altura, e dependendo da modalidade a que meu humor se dispõe, estou convencida, estico de 2 a 4 centímetros, sendo a iyengar a mais generosa.

Quando era meu professor de dança contemporânea, Antonio gostava de alertar os demais em sala de aula: cuidado com os braços da Julia. Eu ria, ele também, e todo mundo. Nas caminhadas pelo espaço, a mesma coisa: cuidado com as pernas da Julia. Era como se eu estivesse em todos os cantos da sala, como se ocupasse todos os espaços, talvez até mais do que deveria, talvez usurpando um pouco dos outros. Não raro, em rolamentos ou sequências que exigissem mais deslocamento, eu dava de cara na parede, ou uma cabeçada leve na barra ao me levantar. Eu não cabia.

Comecei a dançar em 1987, segundo uma fotografia da minha suposta primeira aula de balé. Reformulando: minha suposta primeira aula de balé foi em 1987, e comecei a dançar em algum momento posterior, o que fiz ininterruptamente, e no mesmo lugar, até 2004, quando um primeiro trabalho “de verdade” se impôs, um que tinha a ver com o curso universitário que escolhi. Paralelamente, uma hérnia de disco L5-S1 também se instalou,

e cerca de 10 anos depois a mesma começou a afetar o quadril, que passou a sofrer

de inflamações.

De lá para cá, portanto, fui infeliz em diversas categorias de exercícios e reabilitações: natação, pilates, RPG, yoga, acupuntura, sustos do osteopata. O gyrotonic foi a única modalidade na qual me senti um pouco mais à vontade (“gyro o que?”, as pessoas me perguntavam, e eu usava a explicação da minha fisioterapeuta: pilates é carne de segunda, gyrotonic é filé mignon), talvez porque seja uma mistura de dança, natação e yoga, mas a seco, sem om e sem chances de machucar.

Quando Betina convocou a velha guarda para fazer parte do espetáculo de comemoração dos 25 anos de sua academia de dança, cogitei voltar, ao mesmo tempo, para todas essas atividades que encarei com sofrimento e tédio, mas que me preparariam para a retomada.

A perspectiva de voltar para o piso de linóleo, giros, rolamentos e gestos contínuos que

só mesmo na dança, me tirou de um coma, ou quase isso. Mal consegui dormir na

noite anterior.

O ensaio estava marcado para um sábado, única maneira de conciliar horários de quase 20 pessoas – pense na soma de pernas, braços, etc. A primeira hora e meia nos dedicamos a abraços efusivos, constatações de “você não mudou nada” – exceto pelo fato de já não termos mais o mesmo alongamento – e atualizações de nossas vidas nos últimos 14 anos. Parte deles, na verdade, continuava flexível como uma década atrás, alguns eu ainda via regularmente, mas a maioria dos diletantes ali reunidos rangia como eu, e se sentia encurtado como eu, embora os palmos de Antonio, que mediam meus tamanhos, atestassem que meus braços continuavam longuíssimos.

Cumpridos os primeiros paliativos das saudades, e capitaneados por Betina, fizemos um aquecimento. Eu já havia feito algumas saudações ao sol, em casa, por garantia, e porque era o que eu mais sabia fazer naqueles dias, depois de ter intensificado a yoga, a fim de ter um retorno menos traumático à dança. Na minha bolsa, além de uma garrafa d’água e uma banana, eu levava um potinho de creme de arnica e outro de um anti-inflamatório mais industrializado.

Betina tinha feito uma enquete prévia, pedindo sugestões de coreografias do repertório que gostaríamos de reencenar, e começamos pela que parecia a mais simples. Meu corpo parecia bobo, letárgico, nem mesmo consegui decorar a sequência de, no máximo, 5 oitos. Em todos esses anos executando os movimentos repetitivos e pré-moldados do pilates, das piscinas, da yoga, o corpo, parece, emburrece, passa a ser regido pela cabeça, perde a sua autonomia.

Daquele primeiro ensaio ficaram os dois joelhos roxos, a ingestão de anti-inflamatórios durante três dias, para aliviar as dores do quadril, um semi-repouso de duas tardes, sobre bolsa de água quente, para aliviar a lombar. E essa incompreensão que a gente tem de se deparar, anos depois com coisas que largamos, mais de 3 metros de pernas e braços próprios, como se fossem só uma parte da vida, e não ela toda.

Tá marcando?

Hematomas: 2 (joelhos)

Comprimidos: 6 (3 dias, 12/12h)

Deite no chão, feche os olhos. Deixe o corpo pesar. Sinta as partes moles. Sinta as partes duras. Encontre uma imobilidade. Devagarzinho, vem mexendo as mãos, os pés. Dos comandos das aulas de dança contemporânea, o mais frequente era o caminhe pela sala, que se transformava em corridas, que se transformavam em movimentos liderados pelo quadril ou pelo pé direito ou pela cabeça, que se transformavam em caminhadas simples outra vez, que passavam a acontecer em duplas em que um era conduzido, de olhos fechados, pelo outro, e vice-versa.

As aulas terminavam com uma roda de conversa em que falávamos e pensávamos um pouco os acontecimentos do corpo, e coisas que a princípio nem percebíamos: confiança, entrega, a falta do certo e errado a que o balé – e tanto mais no mundo – nos disciplinava.

A roda muitas vezes servia para nomear o que percebíamos instintivamente, o que por sua vez ampliava nossos mecanismos e nos fazia arriscar um pouco mais a cada aula.

Naqueles dias eu passava de 10 a 12 horas semanais na academia, e mesmo nos intervalos das aulas, ficava ali, tomando um Gatorade, batendo papo com as meninas da turma. Quase todas tínhamos seguido a tradição de começar o balé clássico quando crianças, passarmos para o jazz, incluirmos outra vez o balé quando entendíamos que a base clássica era importante. No meio do caminho, experimentamos sapateado ou dança de rua, que só foi ganhar minha simpatia anos depois.

É desse tempo, também, o bordão mais famoso da Betina. Você não queria ouvi-la perguntar “tá marcando?” durante as aulas, ou quando passávamos coreografias.

Marcar era botar a preguiça no lugar do esforço, era fazer parecer que a enganação era você. Às vezes, claro, a gente marcava, especialmente no verão. Quem não marcaria no calor inclemente do Rio de Janeiro, aquele período em que a existência mais se assemelha a um rascunho do que poderia ser se as condições ao redor fossem amenas? Em outros momentos, porém, a gente apenas não conseguia botar no corpo o que ela propunha, e nesses momentos ouvir a acusação doía mais que estiramento. As aulas de dança contemporânea acenavam como um refúgio para o cansaço e as frustações intrínsecas ao jazz e ao balé, afinal ali se podia marcar intencionalmente, desde que você assumisse e se apropriasse do sentido. Eu experimentava sentimentos confusos: à medida em que me apaixonava por aquilo que parecia uma dança democrática e inclusiva, que aceitava

en dehors tímidos como o meu, começava a conseguir executar com alguma mediocridade – o que para mim era um grande mérito – a sequência de arabesques do clássico.

Nos sábados de 2016 a ideia de marcar ganhou novas camadas, visto que o corpo ignorava o empenho e desobedecia a qualquer comando. O segundo ensaio foi ainda mais catastrófico que o primeiro, com novas sequências para aprender, além das variações passadas anteriormente. Os 10 anos afastada da dança cobravam seu preço, e davam a entender que nesse período uma outra pequena revolução havia acontecido, condenando os desertores à solidão de sua própria incapacidade. Quis desistir naquele dia mesmo, convencida de que no fundo toda dança era excludente para os maiores de 30 anos.

Entregue os olhos ao rosto, disse uma vez, uma professora, já no relaxamento final de uma aula. Ficou na memória também, porque parecia uma síntese do que aprendíamos naqueles primeiros dias caminhando pela sala: uma reorganização do corpo, na qual reafirmávamos algumas estruturas e pertencimentos, ao mesmo tempo em que descobríamos ângulos, arcos e desenhos que só uma exploração mais atenta e generosa permitiria.

Nos sábados de 2016, as perguntas eram no mínimo duas, e portanto eu teria de insistir:​como criar e preencher espaços que ficaram desocupados por tanto tempo? Como caminhar outra vez nessa sala?

Paredes mágicas

Hematomas: 4 (joelhos, pés)

Comprimidos: 4 (2 dias, 12/12h)

Betina havia dito que faríamos uma participação especial no espetáculo, mas já começa a passar a quarta ou quinta coreografia, desta vez uma composta por trios em que nos posicionamos num tromp l’oeil: Pati, deitada de barriga para cima, executará os movimentos de pernas; eu me ajoelho na altura da bacia dela, com uma perna para cada lado, contornando seu corpo, e ela segura meus quadris para me estabilizar. Não é tão erótico quando a descrição faz parecer. Cabe a mim a movimentação dos braços. Monique se senta atrás da gente como uma espécie de apoio e permanece escondida pelo figurino que dá a ilusão de que somos apenas uma mulher, de proporções imensas. A música é soturna, e já neste primeiro esboço provamos os vestidos da coreografia original, que ficaram no acervo, feitos em malha preta, de mangas compridas e decote canoa.

Nessa época do ano, o mural no corredor da academia já exibia os croquis dos figurinos de cada coreografia da apresentação de fim de ano. A indumentária das crianças era uma mistura de tecidos inflamáveis, cores e adereços, além das sapatilhas que constantemente levavam uma camada de tinta e outra de purpurina de mesma cor. A bancada do bar local ficava tomada por pisantes brilhantes enfileirados, até que secassem e pudessem ser entregues às pequenas dançarinas. Em outros anos, eram os sapatos de sapateado que se transformavam em cópias mais modestas dos sapatos de rubi da Dorothy. David Bowie e seus red shoes ainda não faziam parte da minha vida, mas aquele terrível conto de Andersen já me alertava do sombrio da dança – eu precisaria de alguns anos para entender.

A expectativa da prova de roupa era compensada quando a materialização dos desenhos superava a nossa fantasia. Mas era bater o olho nos vestidos das bailarinas mais velhas que junto vinha uma pressa em crescer. Eu adorava assistir aos ensaios delas, nas poucas vezes em que a cortina da sala ficava aberta para os curiosos. Os pés, ali, quase sempre dançavam descalços e esfolados, com queimaduras que invejávamos, resultado do atrito da pela com o piso de linóleo, pequenos pedaços de pele que raspavam pelo chão para deixar em carne vermelha os metatarsos.

No primeiro ano em que eu já tinha idade e desenvoltura suficientes para entrar no hall dos figurinos que tanto desejei, o impensável aconteceu: a costureira atrasou, se desculpou, atrasou de novo, e apenas não entregou parte das roupas que devia. Era dia de ensaio geral e não tínhamos o que vestir. Pânico. Apelamos aos nossos armários para improvisar. Mas uma das coreografias, que dançávamos embaladas pela “Construção”, do Chico Buarque, na versão do Ney Matogrosso, pedia algo mais. Poucas horas antes de entrarmos no palco, Betina recorreu a um lote de vestidos de malha cor de telha, parte do acervo de um espetáculo anterior. Todas nos vestimos e fomos cortando as mangas, golas e comprimentos dos vestidos, que depois foram manchados, em nossos corpos, com pancake e base de maquiagem, para marcar a poeira das mortes que atrapalham o tráfego, o público, o sábado.

Pouco tempo depois a tal costureira também tropeçou no céu, e talvez os nossos xingamentos e agonias daquele dia nu tenham tido algum peso no destino dela. Dali em diante, Pupu assumiu a confecção das roupas, e eu assumi o papel de imitá-la, espremendo um olho para ficar menor que o outro, graduando a voz, a entonação e repetindo o bordão que ela popularizou entre nós, o famoso “entende como?”, para risada geral de quem estivesse em volta.

Desde a volta, todo sábado passou a ser, além do resgate do repertório de gestos, uma inundação de lembranças. Muitos escritores afirmam escrever para não esquecer, e me reconheço nessa categoria. Essa arqueologia do corpo acabou se transformando numa etapa ainda mais urgente da preservação de alguns fatos, e comecei a desconfiar que eu tenha topado o retorno apenas para registrá-lo de outro jeito, numa linguagem que se tornou um pouco mais fácil, que me machuca menos, e que não pinta de roxos os joelhos e os peitos dos pés, só de permanecerem apoiados contra o chão.

A dança soturna em vestidos pretos se assemelha a uma reza, ou a um ritual desse aglomerado de mulheres, como uma comunhão. E é disso que se trata, também, o exercício da dança, e da escrita dessa dança, e dessa memória, afinal.

Como se fosse um náufrago

Hematomas: 5 (joelhos, pés, ombro esquerdo)

Comprimidos: 2 (2 dias, 24/24 h)

O corpo começa a ceder, ou ao menos é o que a cartela de anti-inflamatórios indica. Na prática, ainda parece que certas coisas aconteceram em outra encarnação. Quando, num sábado em que Betina chega mais tarde, Nega, mestra de balé, decide dar uma barra de clássico como aquecimento, percebo que faltam partes do meu corpo, principalmente toda a cadeia de rotadores da bacia, que outrora permitiam a execução de en dehors, ronds de jambes, etc. Há duas analogias possíveis. Na primeira, um carro roubado é encontrado, aparentemente incólume, até que uma vistoria mais atenta afirma que faltam peças fundamentais para o funcionamento do motor. Na segunda, alguém acorda nu numa banheira e, desmemoriado, depara com uma cicatriz terrível na barriga, se desespera, até finalmente descobrir que, depois de ingestão induzida de um “boa noite Cinderela”, teve um rim removido. Era como me sentia. Como se, ao longo do tempo em que não dancei, músculos e articulações tivessem sido extirpados enquanto eu dormia. Ou atrofiaram barbaramente pela falta de uso.

Ainda assim, Nega me elogiaria no corredor, por causa da coreografia-reza: “É muito bonito ver você dançar, você é muito expressiva.” “Expressiva” é a alternativa para “exótica”, características ambíguas que aquelas amigas da sua tia usavam para se referir a você depois de se derramarem diante da sua irmã “lindíssima” ou da sua prima “muito bonita”, em eventos nos quais o elenco era, no mínimo, inconveniente. Na vida adulta, e na voz de Nega, a palavra soa muito grave, como se viesse carregada de um afeto sincero, contundente, até. Penso num verso de Yeats: How can we know the dancer from the dance?

Algumas semanas depois, o verso volta: Tamara filmaria o trecho da coreografia preferida de quase todos, e na qual sou a primeira a executar a variação de quatro oitos que repetimos ao longo da música. Apertei play e franzi todo o rosto, tamanha a estranheza de ver os meus braços compridos e tortos em ação. Mesmo com a teoria da dança contemporânea a meu favor, é difícil gostar do que vejo em mim, e a repetição só reforça essa frustração que se esboça. Ao mesmo tempo, sou anatômica e politicamente incapaz de qualquer tentativa de readaptação às formas clássicas. Balé é um massacre, e minha autoexigência também. Preciso levar isso para a análise, penso, e sou interrompida pela convocatória de Betina para passarmos outra vez aquela coreografia que amamos.

Minha primeira entrada marca o início da contagem, e daí em diante cada uma tem sua marcação para executar a variação: um oito para sair de uma fila à direita do palco e se deslocar até seu lugar, quando então começa a sequência. Minha segunda entrada é no 16o oito, portanto saio da fila no 15o. Minha terceira e última entrada é no 24o oito, saída no 23o. Todavia, todo mundo se perde. Uma vez que começamos a fazer os movimentos, a contagem se apaga, a música nos governa e tudo é uma delícia, porém anárquico. Tento me guiar pela Michelle: sua primeira entrada é no 10o oito. Pouco depois dela, é Monique, no 13o, e com essas duas referências, não me perco mais. Todavia, não é o suficiente para quem vem depois. Damos pausas na música e a deixamos correr, contando juntas em voz alta, estáticas. Uma virada no ritmo indica o começo do 9o oito. “E o refrão?”, alguém sugere. Mas a música não tem refrão. Criamos os faróis possíveis e tentamos outra vez. Ao final do ensaio eu me torno a referência mais sólida para a organização da coreografia, apesar de muito esquisita com meus braços em quina que, felizmente, não tem nada a ver com os números que consigo adestrar.

Mais tarde eu comentaria com Antonio: “Ainda bem que a gente acha que está fazendo outra coisa.” Dançar, afinal, tem seu grau de esquizofrenia. A imagem que você visualiza de si é uma prova do descolamento da cabeça e do corpo, o que pode desconcertar tanto quanto a maldição do conto de Andersen.

É difícil. Queria ver em mim a beleza dos movimentos que elas fazem. Talvez daqui a umas semanas eu simule apendicite para escapar.

Dança de Páscoa

Hematomas: 5 (joelhos, pés, ombro esquerdo)

Comprimidos: 0

Alex Owens é, possivelmente, a maior referência, para algumas gerações, do que a inserção de uma cadeira na dança pode promover. Sua performance no bar noturno

onde se apresentava tinha como auge dramático o acionamento de uma engrenagem

que despejava água sobre a dançarina de Flashdance, o filme. Não fossem os recortes

asa-delta dos collants, o excesso de permanente e as caras e bocas, eu ainda sonharia com uma das cenas mais emblemáticas do musical, uma em que Alex se torna a personagem de Andersen, com as bênçãos da música pop e do esparadrapo no pé. “Maniac”, o hit que embala o trecho, relê Keats: she had danced into the danger zone,

when the dancer becomes the dance.

Na categoria “coreografia com cadeira”, porém, Ohad Naharin e sua Minus 16 acabaram por superar o reinado de Alex nas minhas preferências. Naharin é coreógrafo e diretor da Batsheva Dance Company, que assisti no Theatro Municipal do Rio, há poucos anos. Dispostos em um semicírculo que ocupa todo o palco, cada bailarino está à frente de uma cadeira que serve de base, e dançam como uma tribo, entre a fadiga e a elegância, executando cambrés que doem só de olhar. Como se nos convocassem a uma insurreição, entoam o refrão do canto judaico de Páscoa que marca o tempo da coreografia. É uma apoteose. Mal posso acreditar que escrevi um livro cheio de danças e deixei Minus 16 de fora. Por outro lado, talvez eu não soubesse descrever com o mínimo necessário pra quem quer que fosse.

Naharin é também o inventor do método Gaga, ou linguagem Gaga, ou antitécnica Gaga, ou algo que mobilizou workshops ministrados por um dos bailarinos da Batsheva, no teatro Cacilda Becker, divididos nas categorias Gaga Dancers e Gaga People. Obviamente, encarei a aula como Gaga person, e ao chegar no teatro encontrei Bruna, Michelle e Antonio já de saída, junto a outros dancers. Munida das minhas saudações ao sol prévias, embarquei na aula Gaga, sonhando com cadeiras.

O que ocorreu, porém, foram instruções sequenciais determinadas pelo bailarino – e instantaneamente traduzidas para o português por uma bailarina assistente – e todos os demais executando suas sugestões, sem tempo para parar ou respirar. Os comandos reiteram a importância da escuta, e instruem a ativação de diferentes partes do corpo como líderes de movimentos que logo exigem o corpo todo. Dentre as propostas: sentir seus ossos deslizando por dentro dos músculos; perceber que suas mãos podem ser suaves como as de um bebê; fazer movimentos que você poderia repetir por horas/minutos/segundos; perceber como um terremoto afetaria os seus gestos.

“Mãos suaves de bebês”, pensei, enquanto franzia a testa, entendendo que aquilo não daria certo pra mim, e percebendo algo que se mostraria também nos ensaios seguintes, uma racionalidade que chega antes do corpo, e que portanto o coloca sempre um passo atrás, desconfiado, possivelmente com critérios demais. Merce Cunningham dizia que a dança é instinto, e que a mente não deveria ficar no caminho. Seus diagramas ou cálculos, esquemas e notações, tudo era “papelada”. Na prática, o que deveria funcionar era a dança. Em diversas entrevistas e declarações ele afirmava que, para isso, era preciso apenas fazer, no que está implícito tirar o cérebro da frente, botar no corpo o gesto.

Cunningham também dizia que o bom professor é como a mente: não atrapalha o aluno. Não estou culpando o instrutor Gaga pela minha falta de empatia com o método. Mas “mãos suaves de bebês”? Francamente. Eu queria cadeiras. Cambrés. Uma sequência em eco de costas arqueadas que, em uma segunda olhada, poderia simular uma sequência de bailarinos baleados, como se a munição fizesse uma envergadura vertiginosa no corpo. Eu queria cadeiras, para assistir Minus 16 por horas e horas e horas. Eu queria cadeiras, para assinalar, mais uma vez, a minha condição de espectadora, seja de um filme da sessão da tarde, de cambrés que jamais conseguirei fazer, de danças de Páscoa que me arrepiam.

Das falas de Cunningham, outra marcante é a que o coreógrafo compara a dança à água. A certeza, então, para os próximos dias, é que não seremos náufragos.

Dança de Bach

Hematomas: 5 (joelhos, pés, ombro esquerdo)

Comprimidos: 0

Betina caminha até o centro do palco – que ainda é a sala – e se posta em silêncio numa quase quarta posição para então soarem os primeiros acordes da Suíte Número 3 de Bach. Após executar um trecho, Carol, Clarice e Flávia tomam a cena, para então darem espaço

à Bruna, que se junta à Michelle brevemente. Michelle faz seu solo e vem me buscar na coxia. Mas estou comovida demais para me lembrar, e precisamos começar de novo. O erro se repete algumas vezes, todas riem com condescendência. Jamais acertarei essa entrada, penso. Nem sei mesmo se quero acertar. Adotei essa ideia fixa de apenas querer assistir pessoas dançando.

Outra cena ficou de fora: Bach, do Grupo Corpo, o espetáculo de 1996. Os bailarinos caíam do céu através de tubos que evocavam um órgão, e dançavam uma das coreografias mais bonitas da companhia mineira em macacões que pareciam feitos de borracha. Como os intérpretes, que pareciam igualmente moldados do látex. Como Carol, Clarice, Flávia, Bruna, Michelle, Betina.

O nosso Bach acontece numa outra frequência, como se uma atmosfera se instalasse e estendesse um tapete que marcha em cadência suave. Talvez venha dos violinos, da grandiosidade da composição. Há uma certa dificuldade em atingir esse estado, parece que todas estamos aceleradas demais, adiantadas demais, um compasso à frente – a cabeça, sempre a cabeça. Betina propõe o exercício, nos sentamos no chão, quase todas com as pernas esticadas para frente, fechamos os olhos e deixamos a música (pode-se chamar de música?) tocar. Parece uma alquimia. Quero morar nesses sábados. Quero morar nessa dança. Quero dançar, finalmente.

O exercício se repete a cada sábado: uma execução da Suíte Número 3, celulares e mentes desligadas, corpo relaxado, uma mão que lentamente puxa um dos pés para alongar, um pescoço que discretamente estala, um diafragma que se infla em câmera lenta, espécie de modo avião para o mundo. E então executamos nossas entradas, Michelle e eu estabelecemos um sinal subentendido, um sorriso que ela começa a abrir quando vem em minha direção, o tempo exato de eu caminhar pra dentro da cena, me virar de costas e caminhar para trás com os ombros, sincronizada com ela, dar um saltinho, ver a Flávia que sai da mesma coxia, repetir a caminhada, ombros em rotação, saltinho.

Quero dançar, finalmente. Sair da cadeira, sair do meu caminho.

Último ato

Na última semana os ensaios se alargam e todos os alunos do estúdio comparecem. Encenamos o espetáculo corrido duas, três, quatro vezes antes de subirmos ao palco para as marcações, já finalmente com as luzes, os blecautes e todo mundo tentando se apertar nas coxias para assistir de lado. A festa se colore de outros tons, e se até aqui tudo já fora nostálgico, ver de perto crianças e adolescentes e demonstrações constantes de elasticidade e fôlego acentuam o contraste evidente.

Já fomos aquelas pequenas criaturas que despertam “oooh” e “aaah” e demais grunhidos que expressam fofura. Uma de nós já foi aquela garotinha que faz tudo para o lado oposto, ou que apenas fica parada no palco, observando desconfiada a coreografia, para desespero da professora e deleite da plateia, que tem uma tolerância – e até uma aprovação – tremenda pela anarquia infantil.

Também já fomos aquela outra que claramente está num difícil período de transição no qual o corpo oscila entre as formas adultas e as linhas retas da fase anterior, e que portanto pertence a uma espécie de limbo, sem graciosidade, em constante conflito com a gravidade, como se houvesse um desconforto da própria pele, que ainda se agarra a uma inocência ao mesmo tempo perdida, e ainda assim à espreita.

E algumas já fomos a dançarina prodígio, aquela que se destaca nas diferentes modalidades, primeira fila, consciente de seus gestos, com pleno domínio de todas as nuances que a dança pede. O ataque na hora certa, a suavidade precisa, a leveza e as pausas e suspensões da respiração, que nos deixam ali no canto da sala boquiabertas.

E de repente uma música do Prince que eu já nem me lembrava, cabelos dançantes em cambrés e sensualidade – e algumas de nós que foram aquelas meninas repetindo a movimentação, sorriso no rosto e um repertório corporal típico dos anos 1990, que mobilizava partes que já quase não se acionam mais. “I truly adore you”, diz o refrão, nos agudos do cantor. E diziam que o jazz era cafona. I truly adore essa vida: os figurinos que colorem o ambiente, a mesma costureira que me reconhece, espantada depois de tantos anos, “menina, por onde você andou? Você não mudou nada!”, a recepcionista que faz uma festa e diz pra todos que me viu crescer, a professora de sapateado que ri quando faço um time step e outros passos cujo nome já não me lembro mais – mas que continuam nos pés. Tantos anos passados ali, na sala agora abafada, cheirando a suor, com as marcas de tanta gente, e nas coxias do teatro em que todos se esbarram e sussurram “merda” ou “arrasou”, ou quando esboçamos um grito de angústia com alguém se desequilibra e quase leva o cenário junto.

Desperto do transe para entrar em cena, ainda na sala de ensaios, e percebo os olhares de curiosidade de todos em direção a nós, um ou outro cochicho. E quando entrarmos em cena, ofuscados pela luz do palco, pelas projeções do telão, por aquela vontade nervosa de fazer xixi quando a música começa ou quando o silêncio se abre pra coreografia, estará ali, nossa pequena apoteose.

E agora que já quase pertenço, e que quero dançar, a dúvida se lança outra vez.

Comunhão

Meses depois, numa tarde na praia, D. fala de como a dança é central em mim, “ao menos é o que parece, pra quem tá de fora”. Fico em silêncio, e o comentário me persegue por dias. Só consigo responder um tímido “é”, com reticências, e propor um mergulho pra disfarçar – nem sei bem o quê.

D. fala em referência às coisas que passei a escrever, tentativas de coreografias no papel. De resgate, talvez. De reafirmar essa coisa que se perdeu, e que por mais que eu tente agarrar, parece, sempre me escapa. E agora que a experimento no corpo outra vez tenho de fazer concessões, adaptações e fantasias, logo já não sei mais onde começa a ficção, e se é possível separá-la do que experimento agora que danço outra vez.

Uma parte considerável dos meus amigos ignora essa história, e se espanta quando digo que voltei a dançar, ou quando pego o álbum de fotos que comprova esse passado. Em algum ponto desse caminho ocorreu algo semelhante ao término de uma relação intensa demais, que ao abandonado só resta tentar soterrar, enquanto escuta o famoso “a vida dá voltas”. Mas enquanto ela não dá, você a empurra pra longe, e vive como naquele limbo em que o corpo ainda não se definiu, tentando disfarçar o desconforto, acreditando que “não era pra ser”.

Meses depois, também, em outra tarde na praia, P. me pergunta, afinal, como foi a apresentação de dança, e revela que quase se convidou para assistir. Como responder a essa pergunta, eu indago de volta, e me arrependo de não tê-la chamado, e de não ter convidado ninguém, e de ter mantido em segredo a porção menos inventada da coisa. E ao mesmo tempo sei que isso é parte do jogo, mesmo que a incerteza já pareça ter se dissipado, que eu já possa reassumir meu papel.

Uma lesão nem tão grave assim, mas que por anos só desaciona – os músculos, os rotadores, os riscos de se movimentar outra vez. Ficar sentado é o que há de pior pra coluna, e no entanto foi o que fiz durante uma década.

É isto, então, querer dançar: sentir outras dores, que acordam o corpo que você ainda tem, e que ainda é possível. Aceitar ser tão expressiva, e receber isso como elogio. Sentir melancolia ao perceber, naquela tarde na praia, que você já não tem resquícios dos roxos que se amarelavam nos joelhos. Mergulhar pra disfarçar que sim, porque no fundo você acredita que a vida dê voltas, e isso pode parecer um tanto ridículo depois de adulta, porque já não podemos mais ser a garotinha engraçada que faz sautés quando não deveria. É olhar para o grupo de sábado, dedicado e afinado, e se perguntar do que serão feitos os fins de semana. É brindar com champanhe no palco, depois fazer um círculo com os pés unidos e as mãos entrelaçadas, e engasgar a fala. É sentir aquela lágrima escorrendo no último dia, ao ouvir os aplausos. É querer telefonar para D., só pra concordar: sim.

 

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