Mare nostrum ou as águas interiores


por Stefania Chiarelli

O antigo ditado português já dizia: “Se queres aprender a rezar, atira-te ao mar”. Ou ainda: "Na água seus crimes não contam”. O medo diante do desconhecido e os perigos além da compreensão há séculos povoam nosso imaginário. Do mesmo modo, está presente a idéia de que o mar é espaço em suspenso, onde as regras funcionam em outra diapasão. Das naus da empresa colonialista às onipresentes embarcações clandestinas contemporâneas, navios e mar surgem como espaço a provocar indagações. E a arte buscou de diversas formas plasmar a contingência de um tempo que Edward Said denominou de era dos refugiados.

Partindo do navio de (i)migrantes, da série de telas de Lasar Segall à cena do embarcação encalhada de Terra estrangeira (1990), filme de Walter Salles, às fotografias dos arredores da ilha de Lampedusa, há muito somos confrontados com a imagem flutuante de sujeitos deslocados, fora do tempo e alienados do espaço. Afinal "estamos em plenos mar", nos dirá Castro Alves, e isso não é pouco, em se tratando de um dos mais belos e tristes poemas de nossa literatura.

Vago em ziguezage por esses territórios fluidos, recolhendo vestígios e identificando marcas que estão mais fortemente impressas em nosso imaginário do que supomos. O tema e a questão permitem a deriva. Navego entre textos de Clarice Lispector, Daniela Versiani e Marcel Schwob. Recuso a idéia de hierarquizá-los, e convoco a todos nessa tentativa de diálogo. Eles inspiram, por eles velo. O verbo velar, além do significado mais ligeiro de se ter zelo e cuidado, também remete ao sentido de fazer vigília, de se passar a noite acordado - e essa acepção me interessa.

Então, ao mar. Penso a princípio na ideia de águas interiores. Trata-se de um conceito jurídico que compreende os mares fechados, lagos e rios. Segundo essa concepção, embarcações civis e militares têm o direito à chamada passagem inocente pelo mar (tanto o dito territorial quanto o interior) desde que não se violem as leis ou constituam ameaça à segurança. Desde o período compreendido entre os séculos XV e XVII se impõe a discussão acerca da navegação ligada aos descobrimentos e à empresa colonialista. Inocência, passagem, ameaça: palavras que aqui adquirem um sentido maior. Para tanto, uma das perguntas cabíveis seria: de quem é o mar? É possível pensar na noção de inocência acerca da passagem pelo oceano? E, sobretudo, quem são os sujeitos que cruzam esse espaço, compreendido em sua dimensão política, hoje e sempre? Piratas, aventureiros, degredados, errantes, viajantes, migrantes, refugiados, fugitivos, escravos, peregrinos, religiosos. A lista é interminável. Mas sua condição, bastante limitada. Alguns podem realizar a travessia mais do que outros.

Sobre essa imagem, vale recuperar a origem. Diz-se que Agátocles, tirano de Siracusa, numa expedição marítima contra Cartago, ao desembarcar, teria mandado queimar todos os seus navios e marchar contra a cidade, cujos habitantes derrotou. Evitava, assim, qualquer possibilidade de fuga ou de voltar atrás. Queimar as naus significaria ir em frente, sem pensar na possibilidade de retornar. Ou desistir. Os exemplos se somam na história, e alguns mencionam os conquistadores espanhóis Pizarro e Cortez. Gente que avançou, destruiu, cruzou oceanos e queimou navios.

Romper com o mundo e queimar navios, portanto, pode ser uma imagem que atravessa esta reflexão, pontuando a noção de ruptura e, porque não dizer, de sentido trágico. Um breve salto temporal. Volto às cartas que Clarice Lispector escreve, entre os anos 1940 e 1950, às irmãs Elisa Lispector e Tânia Kaufmann. O olhar da escritora a partir da Europa nos duros tempos de guerra permite acompanhar um pouco de sua intimidade vivendo quase dezesseis anos da vida fora do Brasil. Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, Clarice se ressente enormemente da ausência da família e radiografa esse tempo partido. Avalia também, a partir da experiência européia, a dificuldade de inaugurar vida nova em terra estranha: "Nem todos são bastante fortes para suportar não ter ambiente propriamente, nem amigos. Cada vez mais, admiro papai e outros que, como ele, souberam ter 'vida nova; é preciso ter muita coragem para ter vida nova" (p. 176). As cartas de papel permitem essa aproximação e mitigam a saudade, já que "receber carta sua às vezes tem o sentido que teria abrir as janelas de um quarto onde eu estivesse fechada há semanas". A escritora escancara a experiência solitária nesse exercício que dura anos.

Falamos de sujeitos que encararam o trânsito pela amplitude do mar, inauguraram a tal vida nova que Clarice refere, mas passaram por inúmeros dissabores, como se sabe a respeito da condição dos judeus no Brasil, sobretudo na era Vargas. A janela aberta convocada pela escritora é espaço de passagem e também de enquadramento. Sabe-se que janelas são molduras, espaços que demarcam nossa distância entre o eu e o outro. A carta de Clarice remete ao conto "Debaixo da janela", de Daniela Versiani. A perspectiva interna é comum a ambos escritos. A autora de Laços de família se dedica a redigir cartas destinadas às irmãs desde a Europa. A clausura do cômodo e a solidão da experiência estrangeira clariceana coincide com o olhar do emissário da carta-conto de Versiani. Ali um narrador endereça uma carta também evocando a experiência de estar fora, ainda que estabeleça permanentemente um contraponto com o dentro.

"Eu, que fiz o caminho de volta daqueles que já estiveram sob a janela de alguém, não compreendo muito bem os daqui, embora também faça parte deles. Porque não posso esquecer que também os meus estiveram há pouco tempo sob a janela de alguém. Todos deveriam um dia acabar sob a janela de alguém. Porque a maioria de nós só compreendemos pela carne." (p. 248)

Há portanto, o sentido de investigar essa distância e a sensação de estranhamento. Quem são "eles"? Quem somos "nós"? Os "daqui" e os "daí"? Quem o "você" da carta? A resposta pode ser provisória, uma vez que as posições são intercambiáveis. Mas é inevitavelmente política. Trata-se de pensar a relação com o outro, esse estranho. O intertexto explícito com o conto "A menor mulher do mundo", de Clarice, em que a relação entre colonizador e colonizado é posta em questão, se faz presente no conto de Versiani. Somos olhados pelo conquistador que nomeia e domina. E esse olhar é janela e moldura; ele fixa e aprisiona. Como não lembrar do embaraço de Marcel Prêtre ao ver Pequena Flor se coçando onde não deveria? E mais. A mulher é enquadrada pelo olhar do explorador e terminará nas páginas do jornal, consumida como curiosidade exótica. Mais janelas .

Abrir a janela de um quarto fechado há semanas, na carta de Clarice, evoca a imagem de arejar esse espaço de solidão entre estranhos. Ela própria estrangeira no Brasil e expatriada naquele momento na Europa, parece dizer "entre, por favor". Já a carta-conto de Versiani nos coloca diante de um narrador/emissário que o tempo todo tenta entender o que se passa debaixo de seu nariz. De sua janela. Ser uma curiosidade, um imigrante, um refugiado. Para tanto, essa prosa de tons líricos de Versiani, que passa pela duvida e pela ambiguidade, passa a inequivocamente assumir um tom cruel. Como não sê-lo? Apenas ao término da carta esse emissário nos convoca a olhar o menino. E voltam o mar e a imagem de uma "onda desfavorável", lembrando aquilo que Homi Bhabha evoca na condição pós-colonial das poéticas do exílio, essa prosa austera dos refugiados políticos e econômicos (p. 24).

"Porque a onda nos embebe de medo. E nos afoga. E então nos deita delicadamente ao lado daquele menino na praia.

Mare nostrum. Mare nostrum. Nunca um nome esteve tão equivocado. E tão correto, segundo o ponto de vista de quem o utiliza.

Falo assim, por alusões, porque quero confundir você. Quero que você não saiba em que lugar se enfiar nos dêiticos e pronomes desta carta. Quero que você fique pairando entre todos eles e em nenhum. Quero que você fique aí, desesperado em torno de uma solução que o acalme. E que, como eles, fique perdido, confuso e sem resposta. Eu quero ser cruel com você. Eu quero que você e eu nos afoguemos junto daquele menino." (pp. 250-251)

O nome da criança é evitado (e ele está impresso em nós). À diferença do explorador francês que classificou a pequena criatura da selva do Congo, na carta não pronunciaremos esse nome. Ele vai reverberar em silêncio dentro de cada um. E mais. A pergunta é também em torno do fato de que esse mare nostrum não é nosso: ele é de Marcel Prêtre, ele é de Agátocles, do Papa Gregório IX; ele pertence aos que nomeiam, aos que deliberam sobre os mares interiores. Sobre quem circula por eles. Quem entra, quem sai, quem fica. A narrativa de Versiani simboliza essa perda sem adotar tom lacrimogêneo. Há uma interpelação a um nós aqui. Só é possível nomear essa dor por meio de alguma crueldade, já que somos todos responsáveis. Vale lembrar que se trata de uma carta encerrada com um "aceno aos daí". Barthes em O grau zero da escrita nos fala da escrita como ato de "solidariedade histórica", dessa função de constituir uma relação entre a criação e a sociedade. Essa carta/conto convida, portanto, a um pensar coletivo, a despeito da intimidade e da subjetividade que uma missiva encerra.

Entre queimar navios e abrir janelas penso igualmente em A cruzada das crianças, escrito no século XIX por Marcel Schwob. Trata-se de um texto formado por oito pequenos relatos, monólogos narrando o episódio histórico da expedição de sete mil crianças em resgate do Santo Sepulcro. Esses estranhos crédulos percorrem cidades da Europa movidos pela fé, e despertam medo, curiosidade, pena, raiva. Os narradores são desde as próprias crianças, passando por um simples clérigo, um leproso, o Papa Inocencio III, sujeitos errantes, e o Papa Gregório IX. Não me deterei aqui em análise detalhada dessa pequena jóia. Mas com ela dialogo no propósito de pensar ali também a imagem das crianças e do mar. No relato do ultimo narrador (1) gostaria de me concentrar.

No trecho, o papa Gregorio IX evoca a imagem de um mar "devorador, que parece inocente e azul". Ele se endereça ao oceano e suplica: "Oh mar Mediterrâneo, devolve minhas crianças...". Fala da culpa e da tristeza da condição dos infantes perdidos e nunca reencontrados. "O que fizeste com nossas crianças?". No entanto, o mar emudece. E o papa o acusa.

"Tua culpa me inspira tristeza. És tu e mais ninguém que eu acuso, mar de enganosa transparência, miragem maléfica do céu; te conclamo à justiça perante o o trono do Todo-poderoso, de quem dependem todas as coisas criadas. (...) Tu nada dizes, e esta mudez é fruto de todas as tuas bocas brancas que vêm expirar na praia, junto a meus pés". (p. 40)

No entanto, essa voz masculina termina por absolvê-lo, dizendo que não peque mais. Considera a si e a esse mar personificado como seres ignorantes e puros. E dali surge um pacto. Em troca da devolução dos corpos afogados das crianças, o Papa promete erigir um monumento expiatório, um lugar da memória (2). A obra se encerra com uma visão dramática:

"E tu me devolverás os corpos de minhas crianças, mar inocente e consagrado; tu a levarás às praias da ilha: e os prebendeiros acomodarão os corpos nas criptas do templo; e acenderão com oleos sagrados lampadas perpetuas, para mostrar aos viajantes devotos todos estes pequenos esqueletos brancos estendidos na noite." (p. 42)

A passagem pelo mares nunca se dá de forma ingênua, como nos faz lembrar o conceito jurídico, e a inocência presumida desse oceano será o tempo todo questionada. A massa azul, "inocente", se configura em lugar por onde transitam essas ditas vozes brancas infantis. Por esse espaço de culpa e purgação circula a legião de crianças, que recebe ao longo do texto distintas nomeações; ora é um enxame de abelhas brancas, ora um exército de inocentes, por vezes uma horda de estrangeiros... Peregrinos que acreditam que o mar se dividiria para deixá-las passar, recolhendo conchas à beira das praias como lembrança da viagem (esse passa a ser o símbolo do viajante). Afirma uma das crianças da cruzada: "Nossa esperança é imensa e logo veremos o mar azul. E no fim do mar azul encontra-se Jerusalém, e o Senhor permitirá que todas as criancinhas venham ao seu sepulcro. E então as vozes brancas serão alegres na noite"(p. 29). Ledo engano. O mar não se abriu generosamente: ele as engoliu.

A leitura desses textos pode e deve nos convidar a pensar em como, atravessando os séculos, o mar é espaço político de disputas e de grande simbologia. O binômio mar azul/vozes brancas, alusão a sujeitos em trânsito e a um exércitos de inocentes de séculos atrás comparece como fantasmagoria. Do navio negreiro de Castro Alves à cruzada das crianças, de Pequena Flor ao menino sírio. São vozes de sujeitos escravizados, marginalizados, crianças, mulheres - aqueles que em geral protagonizam essas terríveis histórias ainda por ser (mais) contadas. Quem o atravessa, como, porquê, e, sobretudo, onde eles chegam (e se chegam) é uma pergunta que não cessa de incomodar. Somos todos viajantes e esse espaço de intervenção é no aqui e agora, como nos fala Bhabha: "O passado-presente torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, do viver" (27). É preciso escolher comprometer-se, e não desviar o nosso olhar.

Referências bibliográficas:

BRECHT, Bertolt. A cruzada das crianças (trad. Tercio Redondo). São Paulo: Pulo do Gato, 2011.

BHABHA, Homi. O local da cultura. (trad. Myriam Ávila, Eliana Reis, Gláucia Gonçalves ). Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2010.

LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

SCHWOB, Marcel. A cruzada das crianças (trad. Milton Hatoum). São Paulo: Iluminuras, 1987.

VERSIANI, Daniela. "Debaixo da janela" in CHIARELLI, Stefania, OLIVEIRA NETO, Godofredo. Falando com estranhos - o estrangeiro e a literatura brasileira. Rio de Janeiro: 7letras, 2016.

Notas:

(1) Gregório IX (século XIII) foi o pontífice responsável pelo estabelecimento do Santo Ofício durante a Idade Média.

(2) Bertolt Brecht nos anos 1940 escreve um poema narrativo homônimo, em que retoma a lenda medieval, desta vez versando sobre órfãos famintos peregrinando durante a Segunda Guerra.

Stefania Chiarelli, doutora em Estudos de Literatura pela PUC-Rio, é professora de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense. Publicou os ensaios O cavaleiro inexistente de Italo Calvino - uma alegoria contemporânea (EDUCS, 1999) e Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (Annablume, 2007) e organizou, com Giovanna Dealtry e Masé Lemos, a coletânea Alguma prosa - ensaios sobre literatura brasileira contemporânea (7letras, 2007), bem como os volumes O futuro pelo retrovisor: inquietudes da literatura brasileira contemporânea (Rocco, 2013), com Paloma Vidal e Giovanna Dealtry e Falando com estranhos - o estrangeiro e a literatura brasileira (7letras, 2016), com Godofredo de Oliveira Neto.